sábado, 20 de março de 2010

Prólogo II (SPN)






Prólogo II


Angelinne andava lentamente, pensando em tudo que já vivera, imaginando se tudo aquilo valia a pena.

A praça estava deserta, a não ser por ela e seus pensamentos. Sentou-se no banco e deixou a cabeça pender para trás, recostando-se na madeira pintada.

Tudo que ela queria era silêncio, tudo que queria era paz, tudo que tanto ansiava era solidão. Pelo menos uma vez ela não desejava alguém para ouvi-la. Morrer seria mais fácil, concluiu.

As dúvidas que a assolavam em sua maioria eram derivadas do fato de ela não saber o que queria ser, não havia planejado um futuro. Ou pelo menos não um futuro tão próximo... Estava numa fase decisiva em sua vida, não poderia mais permanecer imparcial, tinha de escolher um dos caminhos. E o pior, tinha de escolher sozinha. Era um tiro no escuro, uma armadilha muito bem armada por um caçador muito experiente: ela mesma. Ninguém a conhecia melhor do que ela, seus temores, seus segredos, seus desejos... Tudo.

Quanto mais ela chegava a essa conclusão mais confusa ficava. Quanto mais ela não admitia que preferiria mil vezes já ter suas decisões tomadas antes mesmo do nascimento, como nos filmes que já assistira diversas vezes, onde as filhas são prometidas ainda bebês e antes de conhecer o noivo já o repugnam, mas no fim eles se casam e são felizes para sempre; mais preferiria viver apenas no papel, como suas estórias.

Um termo que ela não conhecia: felicidade. Até chegava a achar que não nascera para casar-se com um príncipe encantado como as Cinderelas dos contos de fada. Por mais que seu lado sonhador dissesse que ela possuía um, seu lado racional dizia que aquilo era tão real quanto Papai Noel e Coelhinho de Páscoa.

E era essa briga que a levava a toda a confusão mental, a briga entre ela vs. ela mesma. Como Coringa e Batman, Polícia e Ladrão, Preto e Branco, Bem e Mau...

O que sentia cada vez que uma de suas personagens vivia era indescritível, chegava a ver cada expressão, por muitas vezes sentia o que se passava na mente de cada uma das personagens durante as cenas. Isso as tornava tão reais quanto sua própria realidade. Às vezes, quando as mortes se faziam extremamente necessárias, ela as escrevia e reescrevia várias vezes, buscando uma forma não tão utópica de evitar aquela morte, mas ela sabia que mais cedo ou mais tarde aquilo seria inevitável.

Sofria quando separava seus casais, sorria quando os reunia...

Sua relação com a escrita era de necessidade, viver tudo aquilo - mesmo que na fantasia - lhe era necessário tanto quanto o ar, talvez até mais. Nas letras ela podia viver em qualquer lugar no mundo, falar qualquer idioma, possuir qualquer beleza, sorrir... Algo tão simples e tão necessário.

O ser humano precisa manter uma certa quantidade de sorrisos e alegrias diários para viver, a quantidade varia de pessoa para pessoa, mas todas sem exceção precisam dessa cota, a de Angel nunca fora cumprida com êxito.

Sua realidade era tão avessa à alegrias que ela mesma se espantava quando ria com alguma bobagem que Chris dizia, era algo novo para ela, novo e raro, que não deve ser desperdiçado.

Apesar de tudo ela ainda se permitia sonhar, e era tão somente por isso que ainda vivia, somente assim poderia escrever. E sonhando poderia viver.

Uma fórmula complicada para uma garota de apenas 17 anos, quase 18. Ela mesma admite que não seja compreensível para todos, nem mesmo para ela.

Ouviu um farfalhar de asas e voltou sua cabeça para a frente, mas não havia nada ali. Procurou por qualquer coisa que tivesse asas, mas nada encontrou. Balançou a cabeça afastando aqueles pensamentos, já havia coisas no que pensar e ter alucinações não a ajudaria em nada - Não enlouqueça, não agora.

Apanhou sua mochila e levantou-se, em seguida começou a andar de volta para casa, seu pesadelo.

Conforme andava, sentia olhos cravados em suas costas, medindo seus movimentos, a forma como olhava às pessoas. Temeu que realmente estivesse enlouquecendo. - Calma, é só uma impressão - ela dizia baixinho, mas já não acreditava que fosse apenas isso. O vigor de seus passos aumentava cada vez mais, e ela descobriu-se imensamente longe de casa, uma distancia que não teria tempo de percorrer apenas numa caminhada, começou a correr.

As pessoas olhavam para ela pensando no quão atrasada aquela jovem estaria, mas sequer imaginavam que ela realmente tinha o que temer.




***


[N/a: A estória vai parecer cortada, mas esse recuo de tempo entre esse prólogo e o primeiro capítulo será explicado em breve.

Para ver a estória toda selecione o marcador (label) Angels Fall First.]

Um comentário:

  1. Perfeita como sempre e vse sabe disso ... aaaaaaaa eu sou terriveis em comentarios mas vse é otima escritora e sabe disso .
    Bjs

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