quarta-feira, 31 de março de 2010

Capítulo I (SPN)




Capítulo I

Tudo começou aquele dia, eu escrevia quieta enquanto todos conversavam e o professor pediu silêncio.

Faltavam apenas alguns meses para que eu me formasse. Mesmo sem perspectivas de uma faculdade, eu queria obter todo o conhecimento que pudesse absorver.

Minha mão corria pelo papel revisando o texto recém-escrito, porém eu ainda procurava prestar atenção à explicação do professor de química. Ele era um homem de meia idade, a caminho da calvície completa.
A baixa estatura aliada à barriga proeminente e os poucos fios de cabelo restantes deram-no a fama de solteirão, sempre paquerando as professoras mais jovens e até mesmo as alunas. Felizmente eu não me encaixava no seu padrão de beleza juvenil.

Com pouco mais de 1,60 metro e o corpo ainda em formação, eu não era bonita, e diversas garotas confirmavam isso diariamente.
– Menina-Monstro?! - uma das cheerleaders me chamava. Para elas eu era apenas uma mente capaz de resolver os problemas de álgebra e os cálculos em química e física, nada mais.

De certa forma, a ausência de beleza me ajudava a passar despercebida aos olhares masculinos. E eu agradecia por isso.

Olhei para Kimberly e ela me mostrou o portifólio com suas atividades por fazer, me levantei e fui até ela - Que dia?
– Amanhã mesmo - respondi-lhe a data em que lhe entregaria suas atividades respondidas, ela assentiu e eu voltei para minha carteira.

Essa era uma das formas que ganhava algum dinheiro, visto que o que meus pais ganham mal é suficiente para sustentar seus vícios: o álcool e as drogas. Tenho perfeito conhecimento de que eles furtam algumas notas quando acham que eu não estou olhando, tolos... Entretanto, eu prefiro permanecer calada a reclamar e sofrer ainda mais abusos do que já sofro, talvez até mesmo morrer.

O sinal indicou o término das aulas daquele dia -... Bom, é isso. E não se esqueçam de fazer os exercícios que passei - e o Sr. Damon se despediu com um sorriso malicioso lançado à Kimberly e se foi.

Arrumei meus materiais, com especial cuidado com o portifólio de Kimberly. Ainda me lembro de quando, num dia chuvoso, deixei-o cair e tive de pagá-lo mais tarde - e não foi nada, nada barato...

Fui andando para o estacionamento, não, eu não tinha um carro, mas a saída mais próxima era por lá e eu não queria me demorar a chegar em casa. Quando me aproximava do portão, Christian - um dos poucos hispânicos da escola e também um associado ao "clube dos esquisitões e rejeitados", como eu - veio ao meu encontro, trazia seu já conhecido sorriso no rosto. Parecia que nada pelo que passasse iria abalá-lo, como eu gostaria de ser como ele...


– Olá! - ele sorria ainda mais, isso acabou por me deixar pior mesmo eu não querendo demonstrar. Sei que doeria dizer que sentia saudades desse sorriso quando fosse embora, então preferia o silêncio. Pelo menos ele não sentiria tanto quanto eu.

– Oi - respondi simplesmente.
– Ah, vamos! Faltam apenas 3 meses para nos formamos e podermos ir conhecer o resto do mundo! - esse era seu maior sonho: conhecer cada país do mundo, conhecer cada cultura, cada dialeto... Enfim, ele era muito semelhante comigo nesse aspecto: quanto mais distante, melhor.

– Ótimo, para você... - ele pareceu confuso, não era muito acostumado ao meu sarcasmo natural.

E Chris - como prefere ser chamado - começou a contar seus planos de viagens, mesmo sabendo que eu não os ouviria.

Eu me importava muito com ele, e exatamente por isso me doía cada pensamento de que pudéssemos nos afastar. Não é isso que você pode estar pensando, não era amor, não. Era mais como uma amizade muito profunda, construída com base na confiança e necessidade mútua. Ok, isso pode sim definir amor, mas enfim, não era um amor "homem + mulher".

Andamos juntos e ele continuava a falar. Acredito que a família dele sofre muito com esse aspecto da personalidade de Chris, ele fala demais...

Continuamos a andar pelo quarteirão, até que Chris parou de andar e me olhou - sim, ele sabia que eu não estava prestando atenção a nada que ele falava, mas não era isso.
– Até quando vai ficar ai, calada? - ele me olhou mais intensamente e sorriu - Você aprontou que eu sei...! - o que ele queria dizer era que eu havia escrito algo durante as aulas.

Talvez o único ponto de discórdia entre nós era a exclusividade que ele exigia para com as minhas estórias. Ele deveria ser sempre o primeiro a lê-las, fossem ruins ou boas. - Não, eu não escrevi - sorri fraca.
– Mentira, eu sei que você escreveu - Admito, sou uma péssima atriz... Preciso melhorar isso.
– Ok, eu escrevi. Mas, dessa vez você não lerá - Fato. Sempre que eu começava uma estória e Chris a via, acidentes aconteciam e eu era impedida de terminá-la.
Lê-se: Meus pais ficavam sabendo e sim, Chris não é nada discreto.

– Por quê? - ele falou com a expressão extremamente ofendida. Posso até ser uma escritora amadora, mas Chris é um ótimo ator. Fica a dica para que as meninas não se envolvam com ele.

Por mais que não pareça, Chris é atraente (se eu disser isso à ele, com certeza ficará ainda mais convencido), porém não tanto quanto ele julga ser. Acho eu, que a única coisa que pode mudar a forma como as garotas o vêem, é um bom banho de loja.
É mais do que comum vê-lo usando camisas espalhafatosas e muito coloridas, ele diz que é a forma que encontrou de se orgulhar de suas raízes. Eu digo que Porto Rico não é o mesmo que Brasil, mas ele não compreende - ou me ignora; eu particularmente acho que é a segunda opção.

– Você sabe por que - um olhar de cachorro pidão foi a resposta que obtive. Definitivamente ele é um ótimo ator.
– Juro que não sei Angel. - ele sorriu, me convencendo por fim a mostrar-lhe a estória.
– Eu mostro... - ele ergueu os braços comemorando e me interrompendo. Puxei sua camisa alertando-o das pessoas que nos olhavam com expressões de: "Quem são esses loucos?!".
– Ooops... - sorriu e eu bufei.
– Eu mostro com a condição de que seja lá em casa. Meus pais chegam daqui a pouco, isso se não já chegaram, e eu tenho muito que fazer - só percebi o que havia dito depois que já era muito tarde. Ele sorriu com a dupla conotação da frase, e foi ignorado.

Seguimos andando, cada vez mais eu apertava o passo queria chegar logo em casa e fazer as atividades de Kimberly para poder cuidar das minhas. Também sabia que se não chegasse logo em casa, Chris me levaria novamente à uma lanchonete para conversarmos e queria a todo custo evitar proximidade com ele.

– Você não vai me mostrar, não? - ele falou com uma voz carregada de sotaque e manha. E o pior de tudo era ele saber que me dobraria facilmente com isso.

Sim, eu gosto do sotaque hispânico dele, fato. E quando é somada a fala manhosa no "pacote", eu acabo (querendo, ou não) fazendo o que ele quer, fato.

Sentei-me no meio-fio e abri minha mochila, lá estavam os escritos. - Muito cuidado, manusear com as mãos limpas, não comer próximo à eles, não ler em voz alta, dedicar atenção total à limpeza do ambiente antes de removê-los do envelope - repetimos juntos.

Sim, para que eu permitisse (como se eu pudesse impedi-lo) a leitura das minhas estórias eu exigia cuidado máximo quanto à limpeza e organização. Até porque eu raramente fazia cópias e pretendia sempre tê-los por perto.

Ele pegou o envelope de papel pardo sorrindo triunfante e colocou em sua mochila, depois se sentou ao meu lado - Sabia que eu te amo? - ele disse.
– Claro, tanto quanto eu prefiro sorvete de morango - sarcasmo. Eu era a única pessoa que ele conhecia que preferiria sorvetes de gostos duvidosos (literalmente), lembro-me que uma vez escolhi um sorvete de chocolate e achei horrível, fiquei imaginando como as pessoas poderiam gostar daquilo... É tão... Estranho.

Chris fez uma expressão de quem se sente ofendido. O motivo: ele simplesmente A-M-A sorvete de morango. Total, é uma paixão platônica. Revirei os olhos e me levantei.

Peguei minha mochila e comecei a andar de novo, Chris apenas me olhava. - Ué? Não vai vir, ainda não chegamos às nossas casas... - só então ele pareceu perceber que estávamos sentados no meio-fio em algum lugar perto da escola, o que não era nada seguro.
Não que eu ligue muito para segurança, nunca a tive, mas ligava para Chris, que fora criado em família. Ele levantou-se e recomeçamos a andar, dessa vez em silêncio (por um milagre divino ele calou-se).

Andamos mais alguns quarteirões até que chegamos à sua casa. Seu irmão mais velho e seu avô estavam sentados na varanda conversando, eram uma família. - Não quer entrar? - ele me perguntou.
– Não, obrigada. Tchau. - acenei e fui andando, mas podia sentir seus olhos cravados às minhas costas, segui sem olhar para trás.

Andei mais rápido, queria logo chegar em casa para não ter de prestar (mais) satisfações de onde estava, com quem e fazendo o que. Conforme andava as pessoas olhavam para mim com o rosto indiferente, mas cedo ou tarde eu teria de me acostumar, afinal, a vida em outro país não é exatamente o que todos acham: glamour e dinheiro, não, muito pelo contrário.

Caso fosse pega pelos policiais da fronteira, além de deportada, poderia (e com certeza seria) ser presa. Agora ficaria muito linda na pose para as manchetes policiais: "... Mais uma imigrante ilegal é presa. Ela alegava sair do país para estudar...", não quero nem imaginar o que fariam comigo na cadeia.

Enfim, essa é a realidade quando se é "classe média" num país onde só há faculdades particulares e seus pais não ligam a mínima para você.
Antes que pense, não sou uma pessoa revoltada, até creio que o contrário: não ligo muito para nada, exceto os livros e cadernos, eles são meus amigos verdadeiros.

Geralmente as pessoas vêem em seus cadernos apenas um objeto no qual se pode inserir informações, mas eu não faço parte dessa classe dominante. Tanto que cuido com o máximo de zelo possível os meus. As mesmas recomendações que disse à Chris valem para mim, talvez até mais rígidas.


Cheguei em casa, não é o local mais lindo do mundo, muito menos o mais feliz, mas isso não tira o título de "lar". Procurei minha chave e logo entrei, queria fazer tudo que devia fazer para me livrar de mais broncas e reclamações.

A vizinhança não era lá das melhores, mas também não chegava a ser aconselhável sair dali. Pelo menos não ainda.

Fui para meu quarto (se é que aquilo pode ser chamado de quarto...) e deixei meus materiais na mesinha de estudos. Olhei ao redor, eu sentiria saudades disso aqui muito em breve - eu sei, parece conversa de quem está prestes a ser executado, mas o que eu faria não passaria tão longe disso.

Angelinne Salazar


[N/a: A partir desse ponto a estória começará a realmente ser desenvolvida. Tanto que a princípio ela poderá parecer cortada, mas em breve esse recuo será explicado e justificado.

Para ver a estória completa, selecione o marcador (label) Angels Fall First.]

sábado, 20 de março de 2010

Prólogo II (SPN)






Prólogo II


Angelinne andava lentamente, pensando em tudo que já vivera, imaginando se tudo aquilo valia a pena.

A praça estava deserta, a não ser por ela e seus pensamentos. Sentou-se no banco e deixou a cabeça pender para trás, recostando-se na madeira pintada.

Tudo que ela queria era silêncio, tudo que queria era paz, tudo que tanto ansiava era solidão. Pelo menos uma vez ela não desejava alguém para ouvi-la. Morrer seria mais fácil, concluiu.

As dúvidas que a assolavam em sua maioria eram derivadas do fato de ela não saber o que queria ser, não havia planejado um futuro. Ou pelo menos não um futuro tão próximo... Estava numa fase decisiva em sua vida, não poderia mais permanecer imparcial, tinha de escolher um dos caminhos. E o pior, tinha de escolher sozinha. Era um tiro no escuro, uma armadilha muito bem armada por um caçador muito experiente: ela mesma. Ninguém a conhecia melhor do que ela, seus temores, seus segredos, seus desejos... Tudo.

Quanto mais ela chegava a essa conclusão mais confusa ficava. Quanto mais ela não admitia que preferiria mil vezes já ter suas decisões tomadas antes mesmo do nascimento, como nos filmes que já assistira diversas vezes, onde as filhas são prometidas ainda bebês e antes de conhecer o noivo já o repugnam, mas no fim eles se casam e são felizes para sempre; mais preferiria viver apenas no papel, como suas estórias.

Um termo que ela não conhecia: felicidade. Até chegava a achar que não nascera para casar-se com um príncipe encantado como as Cinderelas dos contos de fada. Por mais que seu lado sonhador dissesse que ela possuía um, seu lado racional dizia que aquilo era tão real quanto Papai Noel e Coelhinho de Páscoa.

E era essa briga que a levava a toda a confusão mental, a briga entre ela vs. ela mesma. Como Coringa e Batman, Polícia e Ladrão, Preto e Branco, Bem e Mau...

O que sentia cada vez que uma de suas personagens vivia era indescritível, chegava a ver cada expressão, por muitas vezes sentia o que se passava na mente de cada uma das personagens durante as cenas. Isso as tornava tão reais quanto sua própria realidade. Às vezes, quando as mortes se faziam extremamente necessárias, ela as escrevia e reescrevia várias vezes, buscando uma forma não tão utópica de evitar aquela morte, mas ela sabia que mais cedo ou mais tarde aquilo seria inevitável.

Sofria quando separava seus casais, sorria quando os reunia...

Sua relação com a escrita era de necessidade, viver tudo aquilo - mesmo que na fantasia - lhe era necessário tanto quanto o ar, talvez até mais. Nas letras ela podia viver em qualquer lugar no mundo, falar qualquer idioma, possuir qualquer beleza, sorrir... Algo tão simples e tão necessário.

O ser humano precisa manter uma certa quantidade de sorrisos e alegrias diários para viver, a quantidade varia de pessoa para pessoa, mas todas sem exceção precisam dessa cota, a de Angel nunca fora cumprida com êxito.

Sua realidade era tão avessa à alegrias que ela mesma se espantava quando ria com alguma bobagem que Chris dizia, era algo novo para ela, novo e raro, que não deve ser desperdiçado.

Apesar de tudo ela ainda se permitia sonhar, e era tão somente por isso que ainda vivia, somente assim poderia escrever. E sonhando poderia viver.

Uma fórmula complicada para uma garota de apenas 17 anos, quase 18. Ela mesma admite que não seja compreensível para todos, nem mesmo para ela.

Ouviu um farfalhar de asas e voltou sua cabeça para a frente, mas não havia nada ali. Procurou por qualquer coisa que tivesse asas, mas nada encontrou. Balançou a cabeça afastando aqueles pensamentos, já havia coisas no que pensar e ter alucinações não a ajudaria em nada - Não enlouqueça, não agora.

Apanhou sua mochila e levantou-se, em seguida começou a andar de volta para casa, seu pesadelo.

Conforme andava, sentia olhos cravados em suas costas, medindo seus movimentos, a forma como olhava às pessoas. Temeu que realmente estivesse enlouquecendo. - Calma, é só uma impressão - ela dizia baixinho, mas já não acreditava que fosse apenas isso. O vigor de seus passos aumentava cada vez mais, e ela descobriu-se imensamente longe de casa, uma distancia que não teria tempo de percorrer apenas numa caminhada, começou a correr.

As pessoas olhavam para ela pensando no quão atrasada aquela jovem estaria, mas sequer imaginavam que ela realmente tinha o que temer.




***


[N/a: A estória vai parecer cortada, mas esse recuo de tempo entre esse prólogo e o primeiro capítulo será explicado em breve.

Para ver a estória toda selecione o marcador (label) Angels Fall First.]

sexta-feira, 19 de março de 2010

Prólogo I (SPN)





Prólogo I


Eu seria uma garota normal, eu teria uma vida normal. Bom, pelo menos eu deveria, eu acho...

Tudo começou quando escrevi mais uma de minhas estórias... Daí até conhecê-lo foi necessário apenas um breve momento.

Junto com ele vivi os extremos de cada sentimento; dor, ódio, indiferença... Sobretudo, o mais puro de todos: o Amor.

As pessoas dizem que todos têm o seu "... e foram felizes para sempre...", e hoje me pergunto por que apenas eu não o tive como as demais pessoas.


Chega um ponto na vida que se você não fala o que pensa - sejam por palavras escritas ou faladas, você começa a definhar. Deixando se levar por tudo aquilo que não foi dito, mas que você sabe existir.
Creio que esse dia chegou para mim, e venho através deste pequeno grande relato contar uma estória de amor que não teve um final feliz.


Angelinne Salazar




[N/a: O prólogo é composto de duas partes, essa é a primeira e mais curta.
Devo postar a outra parte em breve, que trata da vida em geral da Angelinne, narrada em 3ª pessoa.

Para visualizar a fic completa, é só escolher o Marcador (label) Angels Fall First.]

quarta-feira, 17 de março de 2010

Angels Fall First (SPN)



Shipper:
Castiel/PO
Classificação: NC-18 (diversos)
Tipo: Sobrenatural
Spoiller: - Em plano alternativo -

Sinopse:

Os seres humanos narram seus medos de forma a camuflar a verdadeira estória por trás deles. Eu descobri sua face verdadeira, mesmo desejando não tê-lo feito.


Informações Adicionais:

» Apenas o primeiro capítulo será narrado em POV's. Para que todos possam compreender a forma de pensar da personagem principal (Angelinne).

» Não está completa, então peço paciência e muitos comentários.

» Minha primeira fic séria de Supernatural, quero saber realmente o que acham dela.

» Contém uma personagem original compondo o Shipper.

» Classificação +18 por conter cenas fortes e um enredo nada romantico.

» Sim, a estória foi inspirada na música Angels Fall First do Nightwish. Não foi coincidência.

» Sem previsão de estréia, mas quanto mais comentários a estória receber, maiores as chances de ser postada em breve.


Angels Fall First
"... Uma estória sobrevive, nasce uma lenda..."

Por: Perséfonne Moon
Beta: Dora Russel

sábado, 6 de março de 2010

An Angel (SS/PO)



Os olhos negros corriam de rosto em rosto, mas buscavam apenas um par de olhos castanho-escuros, que ele sabia que nunca mais poderia ver ou tocar.

Suas relações eram puramente sexuais, apenas por prazer e necessidade. As diversas mulheres que passaram por seu leito eram pagas para fazê-lo, e muitas ele tinha certeza que nunca mais o veriam.
As noites notórias de ressaca eram apenas interrompidas pelos chamados do Lord das Trevas, aos quais ele deveria comparecer com rapidez. Sempre imaginara se poderia ser amado por alguém que não o visse como um Comensal, mas sim como o homem que ele poderia ser.

E suas noites eram regadas a sexo e álcool, sempre resultando em terríveis dores de cabeça e ressacas que eram terminadas com uma poção para dor e outra para concentração.

Os anos de espião custaram-lhe muitos machucados, tanto físicos quanto psicológicos. Lord Voldemort gostava de torturá-los até que implorassem por um fim breve, que nunca chegava. Aquele que já fora o mais brilhante aluno de Hogwarts se transformara em um ser sedento por poder.
Nunca se importando com regras ou costumes, sem limites nem qualquer traço de medo ou angústia. Criado como órfão, Tom Riddle havia conhecido a face da miséria e se prometera nunca mais sentir aquilo, fosse preciso fazer o que fosse.

Severus Snape fora apenas mais um dos iludidos pela ambição do Lord. Mas aos poucos conquistou prestígio entre os demais servos, sendo cada vez mais próximo ao Lord, conhecendo seu passado e suas fraquezas, destruindo-o com suas próprias armas, usando de seus próprios métodos. Ferro com ferro, fogo com fogo.


Até, que um dia conhecera Sophie, ainda como Aurora em Hogwarts. Ela cuidara para que as proteções da escola não ruíssem diante a ira de Lord Voldemort, mas, mesmo com seu talento nato e poder ela não conseguira grandes resultados. Fizera o que pudera enquanto bruxa, deixando uma memória pura para ser sempre lembrada aos alunos e principalmente para certo professor de Hogwarts.

Severus continuou a andar, sua vida se fora assim que a de Sophie deixara se corpo. O que mais lhe magoava era o fato de que ela morrera em seus braços sem que ele pudesse fazer qualquer coisa. Não havia tempo para preparar uma poção ou para realizar um feitiço para fechar os ferimentos. Foi a primeira vez que Snape chorou.

Agora ele não se permitia mais viver, buscando a todo custo a morte. A princípio foram meses vagando sem descanso pelos terrenos de Hogwarts, somente uma pessoa sabia onde estava e como estava. Hermione Granger fora a única que não o condenara por não impedir a morte da esposa, ajudando-o sempre que o via com roupas e comida, mas Severus não queria depender da ajuda de alguém por isso decidira deixar Hogwarts definitivamente.

No dia em que decidira ir embora ele fora onde Hermione e ele sempre se encontravam: A Casa dos Gritos, de onde não possuía boas lembranças desde os anos em que era aluno em Hogwarts, quando Sírius armara uma armadilha para que Lupin o ferisse. Mas agora era aquele o único lugar onde poderia ir sem ser perturbado por alunos ou mesmo professores, exceto a Srta. Granger.

No fundo ele queria provar para sim mesmo de que ainda havia alguém que lhe dedicava atenção e cuidados, gostaria de despedir-se dela como sinal de gratidão e também para lembra-se de Sophie nos olhos castanhos de Hermione.


Era madrugada quando Hermione foi à Casa dos Gritos. Já se acostumara a andar a noite em suas vigílias noturnas, ainda mais depois que descobrira que seu antigo professor vagava por ali há meses. Ajudava-o sempre que o via, já saia da escola com roupas e comida todos os dias, sempre na esperança de que ele a visse como mulher e não mais como aluna, mas ele nunca demonstrara nada além de um profundo respeito e alguma gratidão.

Severus se lembrava muito bem na causa da grande mancha de sangue no chão do segundo piso - Sophie... - suspirou cansado com a dor que ver seu sangue ali lhe causava. Queria poder ter tido a chance de salvá-la, mas isso também lhe fora privado: a vontade própria.

Quando Hermione chegou a casa e o viu à espera dela, sentiu que aquela seria sua última chance de dizer o que sentia por ele e suas verdadeiras intenções. Chegou a começar a dizer, mas não conseguira terminar de proferir as palavras, Severus se fora ao menor piscar de olhos. Deixando-a sozinha e chorando com medo de nunca mais vê-lo.


Agora já fazia meses que ele abandonara a Srta. Granger na Casa dos Gritos. Se sua visão do mundo mudara, ele não sabia. Apenas sentia que devia impedi-la de se deixar levar por ele, mesmo ele se implorando internamente para que ela o amasse Severus sabia que qualquer coisa que Hermione viesse a sentir por ele seria derivada do respeito com o qual ele a tratava. - Nada mais do que admiração pela figura masculina, nada mais.

Parou de andar por um momento, sentindo os olhos castanho-escuros de Sophie sobre si. Buscou-os em meio a multidão de rostos pálidos e macilentos, mas não os viu. Suspirou em sinal de desesperança e seguiu seu caminho, ainda buscando-a.


***


A jovem esposa e mãe olhava para fora pela janela de sua casa, imaginando que caminhos seu amor havia tomado, imaginando as noites em que ele pudesse ter adoecido, e sempre evitando a idéia de que ele pudesse não ter sobrevivido sem seus cuidados. Seria demais para uma mulher grávida, ainda mais quando o marido está sempre por perto, certificando-se de que Hermione estivesse segura e saudável.
Rony cuidara para que Hermione não tivesse nenhum esforço físico durante a gestação. Ela até já desconfiara se o marido zelava mais pela vida do bebê do que pela dela, apesar das desconfianças ele sempre desconversava, dizendo que era impressão dela.

Uma neblina encheu a rua com o ar frio de inverno, fazendo com que Hermione fosse se deitar.


***


Em outro país Severus Snape se sentava num banco de praça. As roupas não eram negras apenas por gosto, mas sim em demonstração do eterno luto que ele fazia em honra à Sophie.

Hoje se lembrava com pesar dos poucos momentos que passaram à sós, esperando sinceramente que ela engravidasse para manter a linhagem Snape sobre a Terra. Ainda não tinha certeza de que, se soubesse o fim da estória, a permitiria engravidar, não suportaria saber que sua esposa e filho - ou filha, lembrou-se, tivesse morrido com a mãe. Também não gostava da idéia de que pudesse criá-los sem a presença alegre de Sophie na família, nunca se imaginara nessa situação nem gostaria de vivê-la em qualquer momento. Já bastava a dor de perdê-la.

Viu crianças brincando com suas mães no parquinho próximo do banco, elas sorriam alegres com a simplicidade com que resolviam cada enigma com sorrisos e olhares vívidos. Viu ainda um garotinho dar algumas flores para a mãe, viu a surpresa com que ela reagiu e o abraço apertado que recebera do filho.

Nunca parara para perceber como a beleza pode estar nas coisas mais fáceis e simples da vida, nem tudo precisa ser caro e perfeito para ser belo.

Concentrou-se num livro que trazia sob as vestes - A menina que roubava livros.
Literatura trouxa não era a sua preferida, mas era o que dispunha para saciar a sede de conhecimento. Desde que chegara ao Brasil se concentrara em conseguir um emprego decente e manter-se sóbrio - o que não fizera muito bem nos últimos meses.

Enquanto seus olhos corriam pelas frases e páginas do livro uma criança se aproximou dele e ficou observando-o. Com a mesma perspicácia dos tempos de espião, Severus logo percebeu a companhia, mas resumiu-se em ignorá-la. O menino permaneceu calado todo o tempo, apenas observando Severus ler o livro e imaginando o motivo que o guiara a fazê-lo. Já era tarde quando Severus perguntou o que o menino desejava.
– Nada. - ele respondeu e continuou a fitá-lo. Um pouco incomodado com os olhos do garoto sobre si, ele perguntou sobre a mãe do menino.
– Não sei, mas algo me diz que você me procura.

Snape encarou longamente o garoto que correspondeu ao olhar com sinceridade. Reconheceu que se lembrava vagamente daquelas expressões em outro rosto, um rosto feminino. O espanto formou-se na face macilenta de Severus.

Nunca acreditara em reencarnação, mas a prova concreta estava diante de si. - Qual é o seu nome?
– Joseph. E o seu? - o menino perguntou com inocência, apesar de já saber o nome de Severus.
– Severus. - o menino assentiu e voltou seu olhar para as árvores que rodeavam o parque em que estavam. Em algumas horas iria anoitecer, mas Joseph não se importava com esse fato.

Severus continuou a olhar o menino, até que seguiu seu olhar até a outra extremidade do parque, onde Sophie lhe sorria. Um sorriso simples, porém marcante. Ele sentiu o cheiro de rosas e em seguida fechou os olhos para sentir melhor o perfume de sua amada, quando os abriu ela não estava mais lá e uma criança sorridente estava ao seu lado.



An angelface smiles to me
Under a headline of tragedy
That smile used to give me warm
Farewell - no words to say
Beside the cross on your grave
And those forever burning candles...