quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Tempestade (SS/HG)




Está escuro, vejo somente o luzir das grossas gotas de chuva forrarem o chão, criando um tapete de lágrimas angelicais.
O Silêncio é tão profundo que ecoa em minha mente, dando a impressão de que estou presa, mesmo sabendo que não estou.

Um trovão, o som ofusca o das lágrimas, criando uma sinfonia melancólica.

Ao longe posso ouvir o farfalhar das árvores sob o constante contato com as correntes de água e de ar. Ouço passos ecoando nesse Silêncio, causando-me medo e apreensão. Sigo em direção contrária à que os ouço o mais silenciosamente possível, procurando não expor minha presença ao meu invasor.

Agora meus cabelos, já muito molhados pela chuva, são levados pelo forte vento que anuncia uma tempestade, de raios ou de lembranças, eu não sei. Meus pés descalços tateiam o solo em busca de apoio, mas nada encontrei, apenas os restos férteis de folhas e lama.

Outro trovão, assuto-me com seu som, o vento começa a ficar ainda mais forte, aumentando o barulho proveniente das árvores. Apresso meus passos ainda à procura de algum lugar para ficar até o fim dessa tempestade, não encontro nada.

Sinto o cheiro de maresia; cheiro de ferrugem e sal. Ouço os passos se aproximando , rasgando as folhas sob seus pés, apresso ainda mais os meus.

Perguntas afloram em minha garganta e sinto vontade de gritar, então paro e me viro. Posso ver agora quem me seguiu.

As íris tão negras parcialmente escondidas por uma máscara reluzente. Não sinto mais medo, apenas vontade de me atirar em seus braços, pois sei que ele está aqui para me salvar.

Mas não consigo, sinto meu corpo cair e o chão desaparecer, eu me permiti cair para não sofrer nas mãos dele.
Meu corpo afundando na água tão escura quanto tudo ali, a última coisa que vi foi um relâmpago, iluminando sua face carregada, em seus olhos a desilusão de me perder.



Alguns meses depois...


O telefone toca em Spinner's End, um homem vestido de luto atende - Encontramos um corpo, precisamos que venha fazer o reconhecimento - uma lágrima solitária caiu de suas pálpebras e ele colocou o telefone no gancho.



Horas depois...
 

Snape estava de frente à um caixão de madeira escura, ornamentado com flores disformes ao longo de si. Ele não chorou...

Ele não queria sair dali, queria ele estar no lugar dela. A passos indecisos ele avançou para o caixão, deixando uma rosa sobre ele, em seguida saiu.

Sem rumo nem destino à seguir.

Na lápide jazia:



Hermione Granger Snape

Nascimento: 19/09/1979
Óbito: 31/01/2005

"...Mas, quando agora atrás
dele tudo se fecha, são jardins
outra vez, e os dezesseis sabres
redondos que sobre ele saltam,
raio sobre raio, são uma festa..."


Maria Rilke, Rainer

sábado, 9 de janeiro de 2010

Boneca de Porcelana (EC/RH)





 
One-Shot Twilight
Emmett e Rosalie
 


Os olhos vazios e opacos, a expressão desprovida de sentimentos. A cópia exata de uma boneca de porcelana - de uma beleza inumana e inatingível, delicada e absolutamente quebrável -.
Ela permanecia em sua embalagem de forma que a poeira e, até mesmo o oxigênio não pudessem tocá-la. Causando inveja e admiração por onde fosse levada, arrancando suspiros exasperados dos homens que tentavam conquistá-la - como um prêmio -.
Ela permanecia impecavelmente bem trajada graças a Alice, já que ela mesma descuidara-se de seus cuidados pessoais, entregando-se cegamente ao leito. Recoberta por um vestido elegante, vermelho como sangue, espelhando-se nos lábios carnudos; enquanto o braço direito pendia debilmente para fora da cama, dando-lhe um ar ainda mais despreocupado.
Ouviram-se sussurros no andar inferior, sussurros esses, que ela não fez questão de dar atenção. Os passos pesados, ecoando no piso de madeira escura e brilhante, os passos cessaram-se e ouviu-se uma batida leve na porta do quarto de Rosalie, tirando-a do torpor que se encontrava, dando lugar à expectativa.
Os olhos levemente esverdeados buscaram os azuis, sentindo o rastro do perfil de Rosalie no ambiente - bonito e vazio, exatamente como ela era e se sentia atualmente -. Os traços sutis da presença sensual e envolvente, os cabelos loiros em contraste harmonioso com o vermelho escarlate dos trajes e dos lábios. O corpo escultural de pele aveludada ansiava por seu toque, implorando para que a possuísse.

***

A vivacidade deixara seu ser a muito, seus pés descalços e sujos galgavam às margens do rio que banhava os terrenos da casa. Nas mãos ela trazia uma rosa, seus dedos passeando pelas pétalas, dando-lhes seus últimos minutos juntos. Os braços musculosos abraçaram-na em sua cintura, puxando-a para o alto, fazendo com que os cabelos esvoaçassem à brisa gélida do brilho da lua.
Sorriu, em muitos anos sorriu, seus olhos refletiam o que seu interior já não mais demonstrava. Seus braços buscando o corpo másculo de Emmett junto ao seu, numa fome insaciável um do outro.

***

Fazia 20 anos que tudo havia ocorrido e ela ainda guardava aquela rosa junto à cabeceira de sua cama. Sempre dormia e acordava tendo seus olhos junto a ela. A decoração predominantemente branca do ambiente iluminava ainda mais os cabelos, agora, branqueados.
– Eu te amo! - ela ouviu de uma voz sôfrega e de um único fôlego. Havia necessidade e urgência no tom, os olhos ainda vívidos tornaram a assumir o aspecto vazio, as pálpebras estáticas e os olhos perdidos em algo distante, algo que somente ela compreenderia em toda sua perfeição e complexidade, pois, somente ela era perfeita, como uma verdadeira boneca de porcelana, de beleza pura e intocável.