quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

#1: Leonardo.




Joan Osborn - One of Us


Ela sentou-se ao computador, meio afobada, meio temerosa. Havia algum tempo que lia alguns contos eróticos na Internet e agora estava "inspirada para tentar". Abriu um novo documento do Word em branco e suspirou, sem saber como começar sua história. Resolveu deixar para depois e escolheu um dos tantos contos favoritados para ler, talvez assim ela conseguisse escrever.
Leu o conto todo, prestando atenção na forma como a autora descrevia suas experiências. Quase sem notar, a jovem Clarissa começou a se imaginar dentro do conto, acompanhando a autora, viajando em suas palavras. Abaixou a janela do computador e repreendeu aquele desejo imenso de se tocar imaginando-se na cena do conto até não poder mais. Esperou o tremor nas pernas passar um pouco e foi fechar sua porta e saber o que irmão e mãe faziam. Talvez não fosse sua hora ainda.

Clarissa era uma garota de recém-completados 19 anos, sem qualquer experiência sexual além de uns amassos na formatura (...) Até dois meses atrás, quando começara a ler experiências alheias em sites especializados para o público adulto. A primeira vez em que se pegara lendo - e além, gostando! - um conto erótico suas bochechas arderam como brasa, mas ela seguira até o fim do conto, com receio, mas seguira.
Suas primeiras leituras foram como visitante, até que algum tempo depois ela se registrara no site e passara a comentar os que mais gostava. Porém, uma coisa a intrigava: será que todos os textos são verídicos? Será que cada experiência relatada realmente aconteceu? E as dúvidas a seguiram perturbando até que recebeu um e-mail de um outro leitor do site.

Conversaram por um tempo e se descobriram morando na mesma cidade - sem se conhecerem, porém -; não demorou para o dito cujo querer conhecê-la. Clarissa, por sua vez, receava que ele pudesse comprometê-la uma vez sabendo sua verdadeira identidade, e após muita insistência, acabou aceitando seu convite. Marcaram de se encontrar num restaurante perto do apartamento dele de tardinha dali há dois dias, sem que ninguém soubesse, claro. A jovem sentira um aperto no peito ao vê-lo, receosa de que ele fosse um maníaco sexual, mas o rapaz - agora, devidamente apresentando, Leonardo - se mostrou até um tanto tímido, passando-lhe segurança.
Papo vai, papo vem, os dois começaram a falar de sexo. Leonardo contou como fora sua primeira vez ainda na escola, entre outras aventuras. Até que perguntou à outra:

– E você? Como foi sua primeira vez? – Clari ficou tensa e muda, com vergonha de admitir sua virgindade e até tentou mudar de assunto comentando sobre o tempo, mas os olhos castanhos e fixos do rapaz a fizeram admitir em voz baixa:
– Sou virgem ainda. – Clari esperava ser motivo de chacota do rapaz, mas só viu um riso sarcástico. Foi quando ela se deu conta do quão idiota se sentia perante ele e admitindo sua virgindade para um desconhecido. Dizendo algumas coisas sem sentido e se desculpando, saiu do restaurante. Leonardo estava realmente surpreso por aquela reação e até chegou a levantar-se para ir atrás de Clari mas ela não lhe deu tempo. Pagou a conta e foi para seu apartamento sem comentar o ocorrido com nenhum dos seus conhecidos que passavam na rua.



***


Lá fora estava frio e na ansiedade de de sair de casa, a morena esquecera seu casaco em cima da cama. Dito e feito, mal ela atravessou a rua e começou a chover. O vestidinho verde que escondia seu corpo logo ficou encharcado de água e a maquiagem que sua mãe havia lhe ensinado se desfez tão rápido quanto a chuva começara. Ouviu um carro buzinar ao seu lado e já se virava para xingar o motorista de tarado quando notou que era Leonardo com um olhar preocupado e dizendo coisas sobre ela pegar um resfriado. Ela já ía retrucar quando um raio caiu perto dalí e a fez se desequilibrar e cair de bunda numa poça de água, fazendo os pedetres e Leo rirem, e suas bochechas, corarem.

Leonardo saiu do carro e ajudou-a a se levantar, abriu a porta e fez sinal para ela entrar no carro. Relutante, porém sem alternativas uma vez que perdera junto com sua dignidade, um dos saltos, Clarissa entrou. – Que fique bem claro que só entrei aqui por falta de opções. – disse quando o rapaz entrou no carro. Leo só sorria para a outra. Manobrou o carro e com um 'miado' entrou na pista contrária. – Hey! Para onde estamos indo?! Minha casa fica pra lá!
– A chuva só vai piorar hoje, e se eu for para lá, é possível que não consiga voltar – ele olhou-a nos olhos –, então, nós vamos para o meu apartamento.



***


Clarissa ficou em silêncio todo o caminho, se esforçando para memorizar cara rua pela qual passavam a fim de que, caso acontecesse algo, ela pudesse escapar e depois denunciá-lo. No fim, após cerca vinte minutos em um trânsito quase parado pela chuva, chegaram a um prédio elegante. Ela de repente se sentiu uma caipira por ter imaginado sua casa como um antro de perversão onde Leo levava suas vítimas.

Ele entrou na garagem e estacionou o carro. Parou por um instante, olhando para Clarissa, que prendia a respiração. – Você vai morrer assim, Clari. – ela já ia perguntar como ele descobrira seu apelido, mas então lembrou-se de que usara-o como nickname diversas vezes. Leo desceu do carro e abriu a porta para a morena, que corou um pouco com o gesto. Leo então a levou para o elevador e depois de algum tempo os dois estavam em seu apartamento. Ele não mentira ao dizer que era muito bem sucedido, pois nem o apartamento espaçoso nem a mobília sofisticada o permitiam. Clari sentiu-se meio deslocada ali, com seu vestidinho verde preferido e cabelo e maquiagem desfeitos. Notando seu desconforto, o rapaz logo procurou levá-la ao quarto de hóspedes dizendo para que se banhasse enquanto ele procuraria algo confortável para ela.
Voltou pouco tempo depois com um moletom cinza de algodão e ficou esperando que ela terminasse o banho. Clari, por sua vez, quis demorar o máximo possível, querendo uma desculpa para ir embora e sem encontrá-la. Foi só quando Leo bateu na porta perguntando se estava tudo bem que ela notou o quão infantil estava sendo e terminou seu banho de uma vez. Quando ela saiu, Leo a esperava sentado na cama com a roupa seca ao seu lado, também sorria para ela. – Achei que você tinha tentado se matar ou algo assim.

– Ah, desculpa, é que... – e ela sentiu-se corada pela enézima vez naquele dia. Fechou os braços em torno de si sem palavras para expor sua vergonha. Leo riu e pegou o monte de roupas para entregá-lo à garota. Por um momento seus olhares se cruzaram, mas ela logo abaixou sua cabeça agradecendo-o.
– Ah, achoque seria legal você ligar para casa e avisar que não via poder voltar hoje, por causa da chuva. – e saiu. Quando ela ouviu o clic da porta se fechando, correu para o telefone agradecendo à Leo por tê-la avisado. Discou o número da casa boas quatro vezes antes de acertar, já que seus dedos sempre se atropelavam.

O telefone chamou um bom tempo e quando Clari já ia desistir, seu irmão atendeu: – Alô.
– Oi, é a Clari.
– A mãe quer te matar, aham.
– É que...
– E ela me ofereceu chocolate se eu te encontrasse.
– Ah, que seja. Liguei só pra avisar que não volto para casa hoje, por causa da chuva, e... – ela ouviu um clic na linha, interrompendo o que dizia.
– Clarissa Fernandes! Onde a senhorita está? São mais de 11 horas da noite! – a voz aguda da mãe era inconfundível mesmo com a chuva ao fundo.
– Te amo também, mãe. – e desligou.

Quando ela encostou o telefone na base e levantou a cabeça para secar os cabelos, vislumbrou pela janela o imenso volume da chuva, e que Leo acertara novamente ao dizer que seria arriscado ir levá-la até sua casa; não só pela chuva, mas também haveria a necessidade de uma explicação sobre onde haviam se conhecido e tudo mais. E ela era uma péssima mentirosa. Vestiu a roupa que o outro lhe entregara e prendeu o cabelo com um elástico que trouxera na bolsa. Respirou fundo algumas vezes para se acalmar e foi em direção á porta, era hora de fazer descobertas.



***


Clarissa olhou para o texto em seu monitor, ele estava enorme e riquíssimo em detalhes sobre aquela noite. Sentiu-se uma vadia por contar aquilo à alguém, e como não tinha amigas tão chegadas, resolvera que contar anonimamente era o melhor a se fazer. Ouviu uma batida na porta era sua mãe dizendo:
– Clari, eu e Mario [sic] vamos ao dentista, então já sabe, não atende à porta e se sair, tranca a casa direitinho. – era incrível como a mãe a tratava como criança.
– Sim, mãe, talvez mais tarde, depois que eu terminar o meu trabalho, eu vá dar uma caminhada por ai.
– Aham. Bom, vamos indo, se cuida.

Em seguida ouviu o clic da porta de casa, que por vezes a denunciara nos últimos tempos, e era hora de voltar para o seu relato.



***


No apartamento todo tocava uma música instrumental baixa e a luz também estava baixa. Clari foi para a sala, na qual Leo se encontrava lendo uma revista sobre carros, sentou-se diante dele.
– Boa noite, Srtª. Estressadinha.
– O quê? Você ouviu minha conversa?!
– Na verdade, sim, por que ia pedir para levarem suas roupas para a lavanderia o prédio, mas você vai me perdoar. – ele tinha tom jocoso, de quem procura um desafio onde sabe que não haverá; ela se mantinha calada, uma vez que ele estava em sua casa e ela sequer gostava dali. Cruzou as pernas e os braços e ficou olhando para ele, criando um clima pesado no ambiente. Ele a olhava por sobre a revista às vezes, com um meio sorriso nos lábios.

Leonardo era jovem, embora mais velho que ela, tinha 23 anos e trabalhava no ramo da internet e computadores. Tinha o vigor da adolescência num corpo maduro, e já tivera diversas amantes, mas nunca se sentira assim - nem acreditava que um dia se sentiria - em relação à uma mulher. Sim, porque por mais nova que Clarissa fosse, não era mais uma garota com seus 1,60 metro e corpo quase sem curvas.
Ela podia era de fato sem sal quando comparada às outras mulheres que Leonardo conhecia, mas tinha seu charme inocente por trás do cabelo sem corte e das roupas comportadas que usava. Provavelmente, sequer namorou., pensou ele, voltando-se para sua revista. Se ela pudesse respondê-lo, diria que sim, que já tivera um namorado em todos os seus 19 anos de vida, mas ela não podia, então continuou apenas olhando para o outro enquanto ele lia sua revista.

Enquanto o fitava, Clari notou que ele estava sem camisa e viu o abdômen definido. Ele era como um daqueles modelos de revista, exatamente como ele se descrevia por e-mail. Isso a lembrou de suas dúvidas a respeito da veracidade dos contos lá inscritos, e quase sem notar, sorriu.
Notando o sorriso travesso que ela tinha, Leo abaixou os olhos da revista para a garota, que quase se afogava em tanto tecido tamanha diferença entre os dois corpos. – Perdi a piada?
– Não, é só que... Sei lá, nunca me imaginei nessa situação antes, sendo franca.
– Como assim? Com um 'moreno, bonito e sensual' como eu?
– OK, humildade passou longe, mas sim. – e Leo voltou para sua revista, ignorando as ironias da outra, e Clari, para suas observações. Já passava da meia-noite, mas ela não tinha sono - ou não queria ter? - com medo de que ele pudesse tentar forçá-la à algo. Tentou manter-se acordada, mas pouco depois da uma da manhã ela dormiu, olhando-o.

Acordou tempos depois quando Leo a carregava para o quarto. Clari notou que ele tinha um cheiro maravilhoso, de homem, não como os que seu pai ou tios usavam, era diferente. Sem notar, ela continuou 'dormindo' enquanto sentia-o cuidadoso para não acordá-la. Leo a levou para o quarto e quando a deixou obre a cama, sentiu que ela acordara, ouviu um sorriso sapeca e olhou para ela. Seus enormes olhos avermelhados de sono pareceram brilhar. – Vem cá.
– Olha que eu posso ser mau...
– Não me importo com isso. – e meio hesitante, o beijou.

Foi um beijo desajeitado pela posição, mas foi correspondido por ambos. Só se separaram quando era realmente necessário respirar. Ela parecia linda com o cabelo úmido e olhos sonolentos. Leo tirou a camisa do moletom e olhou para seus seios, que não eram grandes, mas cabiam perfeitamente em suas mãos. Notou-a corar e sorriu beijando suas bochechas. Tomou-a num abraço e terminou de se livrar da própria roupa – Tem certeza disso? Não quero te forçar a nada – ela só assentiu e se entregou àquele que seria seu primeiro amor de verdade.
Aos poucos a vergonha cedeu lugar ao desejo e às sensações que Clari descobria. Foi um momento rápido, e entre beijos ela sequer notou a ruptura de seu hímen. Ela incrível como ele sabia onde tocar para despertá-la, e nisso ela teve vários orgasmos antes de, de fato, perder sua virgindade.

Na manhã seguinte Clari acordou sorridente com Leo a observando. Ainda chovia.



***


Clarissa suspirou, a primeira de muitas histórias estava enfim pronta. Levantou-se e saiu do quarto para beber água, no caminho olhou para o relógio e pensou que sua mãe devia ter acabado de chegar ao dentista. Certamente daria tempo para uma 'caminhada' antes de alguém chegar em casa. Voltou para seu quarto e e salvou o documento para depois publicá-lo no site como seu primeiro conto, em seguida pegou o celular e discou um número rápido. O telefone foi atendido na primeira chamada.

sábado, 9 de outubro de 2010

O Táxi




Odete sabia que não havia sido uma criança normal, não tivera aquele gosto de brincar em frente à casa sob a vista grossa dos pais, não se sujara como as outras crianças normais... preferia por vezes a companhia de animais à de pessoas. Pessoas falavam o que pensavam, animais, se pensavam não falavam; isso era suficiente para ela. Tivera alguns animais quando pequena, cachorros e gatos eram abundantes no lugar onde ela morava - uma cidadezinha interiorana onde todos sabem o que se passa com os vizinhos - e não raro um ou outro aparecia atropelado por um carro qualquer. Era nesses momentos que ela se mostrava ativa e jurava de morte a pessoa que caso algum dia atropelasse um de seus animais, era vingativa e não descansaria até encontrar quem o fizera.

Eis que num dia, quando saíra mais cedo da aula, estava sentada em frente à casa olhando para a rua. Seus pais não estavam e, portanto, ela ficara fora de casa, pois não tinha a chave da porta. Olhando para o pouco movimento que havia ali, ficou olhando para um gato de rua que brincava com uma sacola de lixo. Ele devia ser bebê ainda, era pequeno e malhado com cinza escuro e claro. Era bonitinho, a menina até cogitou adota-lo porém já tinha dois cães pequenos e duvidava que os pais aceitassem mais um filhote em casa. Passou algum tempo focada no pequeno animal até que a carrocinha passou e pegou o pequeno para pô-lo junto aos demais filhotes abandonados. Ela derrepente se viu desconfortável com aquilo, não queria que o gato tivesse aquele mesmo fim que os outros. Ela já sabia que se ninguém o adotasse, ele seria sacrificado porque a prefeitura não poderia mantê-lo. Quis pedir para o moço que não o levasse, mas não ia adiantar, ela sabia.

O táxi parou derrepente, fazendo com que ela saísse de seus devaneios. Olhou ao redor, estava em um posto de gasolina. – Desculpa, é que tem de encher o tanque senão não roda. – e sorriu, com os dentes amarelados e os olhos castanhos brilhando. Odete assentiu e olhou para o lado de fora do carro. Lá a noite estava mal iluminada e densa, a chuva tornava aquela sensação ainda pior. Não tinha medo de trovões nem de tempestades, simplesmente não conseguia ver tamanha beleza que os poetas atribuíam à noite; ela era misteriosa, tudo bem, mas era tão... comum, tão cotidiana que ela por vezes se esquecia da mesma.
Ela jamais a subestimava, só a colocava naquela gaveta de 'sem importância' junto com várias outras coisas, enquanto suas maiores preocupações a cegavam. Enquanto suas colegas de escola agora tinham se casado e tinham vários filhos, passando por dificuldades, Odete nunca sequer tivera namorado - apenas alguns companheiros, sem qualquer importância - e nem cogitara ter filhos. Agora, entretanto, sentia falta de alguém para conversar, talvez por isso era tão só.

Sentiu aquele típico cheiro de gasolina e de posto, aquilo era horrível, mas ela não podia evitar então fechou os olhos e deixou a cabeça pender para trás. Ficou um tempo assim até sentisse o corpo se retesar e então relaxar; era um convite silencioso para uma noite de sono, mas ela não podia, então arrumou sua postura e ergueu a cabeça. Deparou-se com os olhos castanhos do motorista fitando-a pelo espelho retrovisor. Horas atrás ela manteria o olhar firme, mas não agora, baixou o seu e ficou olhando para suas mãos.
Tinha dedos longos, que agora seguravam sua bolsa com cuidado. Gostava de suas mãos, elas impunham o respeito e a autoridade de que ela tanto necessitava para viver. Eram seu meio de trabalho, era com elas que ficara famosa. Odete Saint-Blair, uma reconhecida jornalista e crítica de moda, uma megera para a maioria de seus empregados, odiada por todos, estava sentada num táxi baixando seu olhar para o motorista. Algumas pessoas com quem trabalhava pagariam milhões para ver aquilo, ela, entretanto, não ligava para o que eles pensavam. Ela não podia imaginar o que se passava com o motorista para encará-la tão energicamente, talvez ela não devesse ter pego aquele táxi, afinal, o motorista podia até ser um maníaco... quem sabe, mas era um risco a se correr, todos os dias.

O frentista fez sinal de que já havia terminado seu trabalho e que ele já podia sair dali e ir ao caixa pagar. Aquele posto era diferente, os frentistas - após muitos assaltos - não ficavam com o dinheiro, os clientes deveriam se dirigir a uma espécie de caixa onde um atendente - em geral uma estagiária precisando de dinheiro - e um guarda receberiam o dinheiro. Aquele esquema se mostrara falho por duas vezes, mas os donos não estavam dispostos a re-implantar o antigo sistema e deixavam como estava. O motorista pagou o valor e saiu, voltando para a rua bem iluminada por grandes postes.

– Meu nome é Murkus. – ele não sabia o motivo, mas notara que aquela mulher não era como as outras, ela podia aparentar aquela altivez de alguém dos altos círculos sociais, mas não era fútil como as que via na televisão. Odete se surpreendeu com a voz dele. Não era excessivamente grave, em sinal de masculinidade, mas também não era soprana, era jovial.
– Odete. – respondeu, simplesmente, ainda olhando para suas mãos, a voz fraca.

Markus trabalhava como taxista desde que se lembrava, não se imaginava longe daquela profissão por mais que insistisse que era provisório. Casara-se, criara três filhos e mantinha uma pensão para a mãe com aquele emprego, logo, não tinha nada a perder ali. Tinha apenas trinta e cinco anos, porém, os longos congestionamentos e a rotina estressante haviam deixado marcas profundas em sua tez, parecia muito mais velho do que era, apesar disso, era bonito. A esposa sempre dizia que tivera muita sorte ao casar-se com ele, Markus apenas ria, envergonhado. Marie, sua esposa, era três anos mais nova, e, no entanto, parecia ainda uma modelo. Era estranho o contraste entre os dois: ela, sempre bem vestida e perfumada, deixara a família para casar-se com ele, um jovem estudante sem qualquer estabilidade financeira e sem diploma. Casaram-se numa cerimônia simples, apenas para os amigos mais íntimos e a família - a dele, já que a de Marie recusara o convite -. Mudaram-se para um pequeno apartamento no subúrbio da capital, longe do glamour da sociedade onde Marie estava acostumada a viver.

O que o atraía em Odete não era sua beleza, mas sim sua semelhança com Marie quando esta era mais jovem. Antes dos problemas típicos de um casamento de contrastes, e principalmente, antes dos filhos. Odete, ainda que com os cabelos úmidos e a roupa molhada, tinha classe, exatamente como Marie. – Desculpe a indiscrição, mas porque parece tão triste? – a mulher se surpreendeu com a pergunta, até pensou em ignorá-la, mas a curiosidade era maior.
– Se fosse apenas um motivo tenho certeza que não estaria. – respondeu, olhando-o pelo retrovisor como ele antes fizera.
– As pessoas costumam ver problema em coisas simples, coisas que não existiriam caso não quisessem.
– Eu tenho certeza de que não quero esses problemas, ainda assim, eles não necessariamente desaparecem. Diria que o contrário, até.
– Há alguns anos eu até concordaria com a senhora, mas hoje eu sei que não, e que tudo que nós temos é porque: ou pedimos, ou devemos. E não acho que a senhora deva algo a alguém, então, só resta uma alternativa.
– Talvez. Ainda não sei, mas é provável que sim. – Ela não sabia porque seguia naquela conversa, mas sentia-se estranhamente confortável com ele. – Também é provável que nunca descubra.
– É muito improvável que o nunca se repita. – um momento de silêncio. – Eu nem deveria estar falando com a senhora, desculpe.

E ambos se calaram por algum tempo. Odete voltou a olhar para fora do carro, pensando no que ele havia dito. Devia ser verdade, porém, ela tinha de aceitar que aqueles espinhos - querendo ela ou não - agora eram parte dela; assim como eram da natureza de todas as rosas de todo o mundo. Abriu sua bolsa e pegou um papel amassado, era um rascunho de uma carta. A caneta bic havia borrado - ou eram as gotas de chuva? -, mas ela não ligava para isso. Na verdade, nem sabia o porquê por trás daquela carta, mas ainda assim a havia escrito.

Havia tantos anos que ela não escrevia por escrever, havia deixado esse hábito conforme subia na hierarquia da empresa, não havia tempo para perder com isso quando deveria fazer reportagens que fariam com que ela ganhasse alguma importância. Não que ela quisesse importância por importância, queria fazer um bom trabalho e ser reconhecida por isso, como qualquer pessoa que sabe ser um bom empregado. Então, Alexei chegara com aquela idéia louca de fazerem a sua própria revista, ela aceitara claro, achando ser mais um delírio do amigo, e, no entanto, agora ela era uma das editoras-chefe e era muito bem reconhecida.
Sorriu, sentindo-se mais nostálgica ainda do que antes, mas ela não podia fazer nada. Tocou levemente no ombro de Markus e pediu que ele seguisse para seu apartamento, ainda sorrindo. Tinha o semblante mais leve, até um tanto divertido com os cabelos emaranhados e a roupa molhada. Ele seguiu logo para lá, não estavam muito longe de qualquer forma. Não se falaram no caminho, mas palavras não eram necessárias para que ela agradecesse ou coisa semelhante, e ele sabia disso.

Quando chegaram ao condomínio em que ela morava, Markus não pôde deixar de se sentir muito surpreso. Lógico que ele sabia que ela não era exatamente pobre, ou classe média, mas não esperava encontrar um arranha-céu com câmeras de segurança por todos os lados e principalmente o nome: Edifício Carly Edson, que ele conhecia muito bem. Odete pagou-o e saiu do carro ainda sorrindo, em seguida rumou para a entrada do edifício sem notar o olhar perdido de Markus, olhando para ela e para o edifício.


Continua em: Marie

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A Praça




Ali, sentada olhando para o nada, parecia muito bem mais velha do que realmente era, mas era só cansaço. Sua rotina era pesada: mais de cem horas semanais, tinha apenas a terça-feira para dormir. Dormir para quê?, ela respondia quando lhe perguntavam, e sorria. Ainda lembrava-se dos primeiros anos naquele mercado, tudo era tão difícil e não havia 'salário', apenas uma ajuda de custo para a condução que ela precisava pegar todos os dias. Todos lhe diziam que aquilo não lhe daria futuro e que devia pensar em dinheiro e não em arte, mas ela persistiu. Levou anos – mais do que ela gostaria, até – porém, agora ela estava no topo.

Conservava poucas amizades daquele tempo e podia até dizer que seu único amigo era Alexei, seu companheiro de aventuras. Embarcaram naquilo todos os dias, juntos, mesmo separados por um oceano de idéias. Algumas especialmente contraditórias, diga-se, mas outras floresceram. Odete pegou um punhado de milho e jogou aos pombos, nostálgica. O mundo rodava lentamente, como que com preguiça de lutar por luz. Por vezes ela mesma tivera força de apressar o tempo, mas agora sentia-se velha e fraca demais para aquilo, então, não resistia àquela sensação de formigamento que invadia seu peito. Ela nunca havia sentido isso antes, mas sabia o que era: culpa.

Havia construído uma carreira com o trabalho alheio, ela sabia, mas buscava justificar-se de alguma forma e perdia horas nas madrugadas diante de fotos e fatos, só pensando nos detalhes. Tinha essa mania, era perfeccionista ao extremo com tudo e todos. Não gostava de admitir o que era a verdade: nada daquilo era seu, ainda assim, todos os dias ela comemorava seu sucesso. Um celular tocou. Ela demorou a notar que era o seu próprio, olhou no visor, era Alexei. Imaginou o que ele queria, só então atendeu. A voz aguda do homem a assustou, mesmo há anos convivendo juntos ela não se acostumara.

– Onde você está? Vou buscá-la agora.
– Não – a sua voz era apenas um sussurro rouco –, eu quero ficar sozinha.
– Está novamente nostálgica ou é um daqueles surtos criativos? Os adoro, você sabe.
– Nada, só quero ficar sozinha. – e desligou, desligando também o aparelho.

Odete não tinha certeza se era verdade, mas a solidão era mais... fácil. Sim, era essa a palavra: facilidade. Havia nascido sem espaço, cercada de pessoas como uma flor num canteiro velho e abarrotado de profundas raízes, naturalmente, ela aprendera a blindar-se daquelas raízes. Mas, e agora? Ela havia conquistado seu espaço de direito, devia despir-se das proteções, certo? Ela queria, oh como queria, mas não era tão simples assim, não. Desde criança ela sofrera, tivera depressão e repugnava o próprio rosto; fugia das pessoas e dos espelhos.

Crescera, florescera e com isso vieram as proteções. Agora, crescida, era bela, porém, cercada de grandes espinhos. Fechara-se em si mesma, sentia-se só mesmo cercada de "pessoas". O que era isso?, ela certa vez perguntara a um certo alguém. É o nada., lhe respondera, mas aquilo não bastava, e por isso ela, sem notar, retirava-se todos os dias para sua solidão barulhenta. Em sua essência, buscava nas folhas das edições que publicava as respostas das quais tanto ansiava. Nunca havia o nada, mas também nunca havia o nunca... estava confusa.

Lera tantos livros, ouvira tantos psicólogos, todos diziam a mesma coisa: não há nada com você. Era isso que a irritava, essa persistência no nada. Um joguete de palavras como tantos outros que ela conhecia. Era nesse momento em que ela erguia-se imponente, como aquela rosa. Todos a viam por suas pétalas, mas aqueles que se aventuravam a tocá-la sempre saiam feridos. Observava agora o bater de asas de uma das pombas, era algo tão natural, algo que ela apreciava. Imaginou porque os seres humanos não poderiam ser como eles, e foi então que a pomba voou quando Odete se levantou. Era por isso.

Agora, de pé, sentiu os pés arderem e não hesitou em arrancar os scarpins altos e jogá-los longe. Seus pés eram tão longos e fazia tanto tempo que não os via que quase não se reconhecera. Mesmo apegando-se aos detalhes, a última vez que fizera aquilo fora em segredo. As modelos eram lembradas por seus corpos e rostos, mas nunca, nunca mesmo por seus pés; o mesmo acontecia com ela, com a diferença que ela seguia repudiando o próprio rosto - apenas mais discretamente agora.

Era muito jovem quando aquilo acontecera; esquecera de certas coisas, de alguns detalhes. Não se lembrava com certeza de quando, mas havia sido por volta dos sete anos. Havia brigado com uma colega e também com os pais; passara a noite em claro se olhando no espelho, tomando nota de todos os detalhes, pois tinha medo de se esquecer. Desde então, ela evitava ao máximo se olhar, pois tinha medo do que veria refletido. Tão jovem..., ela dizia às jovens modelos que temiam às suas carreiras vai passar, não tema., quando ela própria ainda não havia superado seus traumas de infância. Seria ela hipócrita? Jamais, ela sempre se consolava, da mesma forma como antes. Será que isso a tornaria uma víbora como a outras? Quem era a vilã e quem era a mocinha dela própria? O que era certo e o que era errado? Essas perguntas eram frequentes desde sempre. Odete fora uma mulher precoce, e talvez por isso criara espinhos ao redor de si.

Agora tentava desesperadamente se desfazer deles e novamente, como antes, batia de frente com seu reflexo no espelho. Era tudo tão confuso, ela era apenas uma criança, apenas uma criança! Eles não tinham o direito de fazer isso com, não! Então tudo ficou escuro derrepente e ela sentiu-se esvaindo, cansada, e deixou-se levar.

Foi tudo rápido, ela agora estava diante do mar e tinha nove anos; era a primeira vez que conhecia o som da vida. Entrou na água com cautela, primeiro, só os pés: sentiu o frio da água; avançou mais um pouco e de tão encantada que estava, não ouviu os pais avisando que iriam comprar um picolé – eles também não se importaram em gritar um pouco mais alto, tinham pressa –. Então num segundo ela desbravava a costa, como aquelas super-heroínas que tanto amava; tudo ficou escuro e ela não mais conseguia respirar, sentia que sua mais nova amiga a engolia: a curiosidade.

Acordou dois dias depois no hospital, tinha tubos entrando e saindo de seu corpo mas não tinha medo. Tinha o peito e a mente aberta para novas experiências e sensações. Naquele mesmo dia teve alta, os pais precisavam trabalhar e não podiam faltar. Ela lembrou-se da enfermeira, era loira e tinha os olhos castanho-escuro; muito vívidos. Ela amava aquilo que fazia, ela era humana.

Já era tarde quando saíram, já no carro ela deitou-se no banco traseiro mas não dormiu, preferiu ficar olhando para aqueles pingos de tinta no céu. O pai notou o olhar interessado e lhe explicou o que eram as estrelas e o principal: elas estavam muito, muito longe dali; bastou para que ela decidisse largar as bonecas e pedisse uma luneta. Não ganhou, porém, engenhosa e geniosa que era, fez a sua própria com um canudo de papelão e cacos de vidro. Começava ai o seu interesse pela ciência. Mas já era tão tarde da noite que ela logo adormeceu. Não viu o pai pegando-a no colo para levá-la para casa, mas sentiu o calor e aconchegou-se.

Quem é aquela mulher sentada no chão, descalça e com o olhar perdido?, ela ouviu alguém perguntar, só então seus olhos retomaram foco e as sombras tomaram formas. Quem sou eu?, ela não sabia a resposta, mas adoraria que alguém que soubesse pudesse lhe dizer. Sentiu as primeiras gotas de chuva no rosto, Sol e Chuva... pensou, lembrando-se dos versos que aprendera ainda pequena, não lembrou-se do resto, entretanto. Havia coisas que ela fizera questão de apagar, outras haviam acontecido há tanto tempo que ela naturalmente havia se esquecido.
Essa era uma delas. Ouviu uma criança sorrir com as gotas de chuva, lembrando-se dos filhos que não teve. Lembrou-se derrepente de tudo que havia abdicado por sua carreira e sentiu-se uma tola. Perdera os melhores momentos de sua vida criticando o trabalho alheio e faturando com isso. Sentiu-se uma modelete no início de carreira.

Mas o que era isso, afinal? Um mercado onde seres humanos têm prazo de validade como animais abatidos? Algo semelhante, era verdade, porém, não tão cruel. Será? Ela sabia que a única diferença entre aquele animal abatido e uma de suas modelos era o polegar opositor – porque o cérebro não era tão diferente assim, diga-se –. A chuva começou a engrossar e rapidamente ela já estava encharcada e o penteado, desfeito; a praça, vazia, exceto por ela própria e seus muitos reflexos.
Ela era a chefe má que cobrava de seus funcionários, era o bom-gosto, a elegância... mas, no fundo, depois de passar por todos os espinhos, ela era um pequeno caule desprotegido. tão frágil quanto aparentava, talvez mais até.

Sentiu o peso da noite cair sobre si, já era hora de partir, então. Com os sapatos em uma mão, a bolsa na outra e os cabelos soltos e molhados, ela parou um táxi e pediu que o motorista apenas rodasse por ai, sem um destino pré-imposto.

– Isso vai custar caro...
– Não me importo, por favor. – ela não era mais aquela garota pobre que pegava uma condução cheia para ir ao trabalho.


Continua em: O Táxi.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Contos de Vida e de Morte, Volume I

Contos de Vida e de Morte, Volume I
____________- O Começo



Ouço gritos, há música... o céu escuro está tão distante... palavras... vozes, apelos... luzes ofuscam meus olhos... alguém chama meu nome. Me ergo.


Tudo roda. Não sei onde estou. As pessoas me olham com desejo, mas elas são moribundas e fedem, fedem a medo. Eu as repudio, totalmente. Ao fundo há uma música, eu a conheço... os dós errados ao piano, sou eu que toco, ainda criança. Sorrio e abraço aquele som; é tão familiar...
Família... logo me lembro que não a tenho. Sinto ódio de todos eles. Falsos! Só me queriam pelo meu dinheiro, todos eles, oportunistas! Sinto frio, muito frio. De repente é como se fosse inverno, minha pele está arrepiada; ela queima, dói.

Sinto mãos me despirem, elas tiram minhas roupas com violência. Me machucam, grito para que parem, mas minha voz não existe. Tenho medo. Medo como aqueles moribundos, tenho medo... Sou um ser como qualquer outro, sou humano; sinto a morte me rondando com seu corpo nu. Ela, derrepente, me parece tão bela e agradável que me seduz.
Mãos saem da escuridão, elas têm vida própria. Tocam meu corpo com luxúria, me excitam. Elas envolvem meu corpo, são frias... estão mortas, assim como Sua mãe. Vejo o oscilar de um líquido prateado... é belo. Contemplo a cena enquanto as mãos ainda me tocam. Placas de aviso surgem, ergo os braços em defesa, mas elas atravessam-me como fumaça sorrio e sinto meu corpo se retesar de dor ao receber a Mãe.


Caio no chão, meu corpo pede descanso, mas as mãos não me abandonam e seguem cuidando de mim. São fortes, ágeis... demoníacas. Vejo um vulto claro acima de mim, é a primeira coisa que vejo em tanto tempo. As mãos somem quando ouço uma ordem num idioma que desconheço. É um som puro, belo e cristalino. Sinto vergonha de minha voz perto d'Ela; é indigno.

Seu corpo é de prata, e suas asas são brancas. Não tem sexo e está nua. Ela sorri, faceira, e me toca. Suas mãos são quentes, elas deixam um rastro vermelho-brilhante em meu corpo... é... sangue. Estou de pé agora, aterrorizado com o sangue que sai de meu abdome; ela está a minha frente. Se abaixa e sorve com cuidado cada gota escarlate; sua língua é habilidosa e gentil, seus olhos são azul-céu. Tão bela... Ela toca em meu rosto, mas suas mãos não mais queimam; por um momento me alegro, mas agulhas perfuram minha pele. Meu corpo vacila e novamente caio.
O chão não chega, braços fortes me seguram. Ouço ordens que não conheço, então tudo se apaga.

Contos de Vida e de Morte





Contos de Vida e de Morte


Autora: Perséfonne Moon
Sinopse:


Era noite, eu bem sabia, mas não podia dizer a quanto tempo estava ali. Talvez dias, talvez horas... ali o tempo não contava. Passos vinham em minha direção e eu sentia a espada cortando minha pele, mas não havia dor, apenas... nada.

Olhar para os outros corpos era minha rotina, eu os contava como forma de entretenimento, mas eles chegavam depressa demais para que eu os acompanhasse. E como eu o desejava, estava cansada demais para seguir adiante... mas eu não podia.

Gênero: Diverso
Classificação: +18 anos (conteúdo diverso)


Avisos:



• Essa é a primeira história em que pretendo narrar inteiramente em primeira pessoa. E nela há um fato curioso, os acontecimentos podem tanto ter acontecido com um homem, quanto com uma mulher. Deixo a cargo de a sua imaginação interpretá-los.

• Esse era um presente para uma amiga, mas infelizmente nossa amizade se rompeu. Dedico-a aos meus colegas do RPG Escola de Magia Beauxbatons e em especial à: Suh, Brunno, Lucas, Alê e Alexiel.

• Os contos, em sua maioria, contém cenas inadequadas para menores de idade com conteúdo sexual entre outros. Portanto, se não lhe agrada, não leia.

• Talvez essa seja uma das minhas últimas "aventuras" literárias, pois não tenho tido tempo para escrever e tenho de estudar para a faculdade.

Todos os contos têm como tema principal a morte. Invariavelmente você terá esse tema em todos os contos, mesmo que tratados de forma diferente.


[Para visualizar a estória completa, selecione o marcador Life and Death.]

sábado, 17 de abril de 2010

Contos, Cartas e Encartes




Contos, Cartas e Encartes


Autora: Perséfonne Moon
Resumo:


Retratos de uma vida, contos do Silêncio.
Páginas alvas de um diário há muito esquecido.


Gênero: Antologia Original
Classificação:
18 anos (conteúdo diverso)


Avisos:

• A estória é uma antologia, e envolve muitos temas considerados inadequados para menores (vide: sexo, drogas e rock'n' roll)

• Não está completa, tampouco ficará. Esse tipo de 'estória' me dá liberdade para escrever tanto um capítulo quanto um milhão sem que deixe vago, pois uma antologia é uma 'estória sem fim', ou seja, dura até quando eu julgar.

• Os primeiros contos serão de conteúdo bem explícito, de classificação 'erótico'.

• Ultimamente não tenho tido muito tempo para escrever, tanto que minhas estórias estão muito desatualizadas, peço perdão caso fique muito tempo sem atualizá-las.



Dedicatória:


• Aos leitores, que não necessariamente deixam reviews. Apesar de serem 'leitores fantasmas', eu gosto de vocês.

• Aos participantes (porque são mulheres e homens) da comunidade MFSS do Orkut.

• Aos leitores que deixam review. Apesar de serem poucos, eu gosto de vocês.



[Para visualizar a série completa, selecione o marcador (label) Contos...]

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Capítulo Segundo, Parte I (SPN)






Capítulo Segundo, Parte I


A mão esquerda virava a página do livro enquanto a direita redigia as respostas corretas numa folha à parte. Terminaria em breve, restava apenas passar as respostas para seus devidos lugares e ela poderia, enfim, descansar.

Angel não sabia o motivo, mas sentia-se cansada. Exausta, para ser mais específica. Procurar as sentenças corretas naquelas páginas tornava-se tarefa cada vez mais difícil, e ela pressentia a hora em que seu organismo forçaria o descanso.

A luz clara da luminária não era o suficiente para mantê-la acordada, e seu corpo relaxou.

Imagens difusas; nada muito concreto. Porém, ela poderia identificar perfeitamente dois olhos azuis fitando-a.
Não havia tom de repreensão, nada, apenas... Medo. Sim, havia medo naquele olhar.

Comoveu-se com a beleza das íris azuladas, era sim a coisa mais bela que ela jamais vira. Não sabia o motivo, apenas havia a certeza de que ele era uma realidade da qual ela sonhava integrar.


O rosto angelical - sim, esse seria o termo correto para defini-lo. Belo como um anjo - crispou-se quando ela aproximou-se, mas seus olhos mantinham a mesma aura amedrontada. E Angel precisava tocá-lo, dizer-lhe que não havia motivos para temer.

E como se o anjo pudesse ler seus pensamentos ele negou que houvesse motivos - Eu sei, mas e você?
A princípio ela achou que não era com ela, mas conforme a certeza chegava, ela acabara respondendo que ficaria melhor. - Você é tudo que me importa, por favor, me perdoe... Eu... Eu queria poder fazer algo mais, mas eu não posso...

Ela se sentia culpada com tudo aquilo, mesmo sem saber o que estava acontecendo. Olhou-o mais uma vez nos olhos e contemplou o céu azulado que a aguardava. Sorriu contente como uma criança, então sentiu a vida deixando seu corpo. Não sentiu medo, apenas angústia por deixá-lo sofrendo.

Para ela, a morte era apenas o início de tudo. Acostumara-se a pensar dessa forma desde cedo, quando as esperanças morriam lentamente conforme sentia a pele se rasgando sob olhos irados do pai e o sorriso indiferente da mãe. Acostumara-se a esperar pela morte a cada dia, finalmente teria seu descanso.

Sentiu o calor do abraço do anjo e então dormiu, dessa vez para sempre...


Angel acordou agitada, notou que tudo estava da mesma forma que ela deixara, exceto pelo fato de estar deitada em sua cama. Ouviu uma agitação na casa e perguntou-se quantas horas seriam.

Sentou-se na cama e olhou para seu despertador. Já era manhã.
Os olhos espantaram-se. Se não se apressasse perderia a hora do início das aulas e, principalmente, seria forçada a ficar em casa, visto que não havia lugar a frequentar às 06:30 da manhã.

Arrumou-se da melhor forma possível e saiu pela porta dos fundos, desejando que não a tivessem visto. Suas pernas não obedeciam ao comando de correr. Mesmo tendo dormido ainda continuava cansada, temia uma gripe justo agora.

Faltavam dois minutos para que os portões se fechassem quando ela chegou a portaria, sorrindo sem graça o porteiro deixou que entrasse sob a promessa de nunca mais se repetir. Ao longe a diretora observava tudo com ar repreensivo, odiava alunos que saiam de casa no último minuto e quando não lhes era permitido entrar na escola, os pais vinham reclamar-lhe que seus filhos eram ótimos alunos e seu único argumento era dizer que sentia muito e calar-se.

Angel entrou na sala exatamente quando o Sr. Damon iria entrar, ele a encarou com rosto inexpressivo. Isso, para ela, era pior do que ser levada à coordenação da escola e ter sua ficha manchada, a indiferença era o que mais lhe doía.

Entrou na sala encolhida, cabeça baixa, sendo exatamente ela: um nada. Sentou-se na carteira mais distante possível e acompanhou a aula com o olhar distante, a mente presa à memória de dois lindos olhos azuis.




***


A aula de química acabara cedo e Angel estava sentada no pátio, o olhar ainda distante.
Chris aproximou-se dela silencioso - Eu sei que você está ai, Chris - o garoto pareceu surpreso, ainda mais pelo fato de Angel nunca ter percebido o susto que a aguardava sempre que estivesse quieta.
– Como? - Chris perguntou e ela apontou para frente. Demorou um tempo para que Chris percebesse sua sombra, riu quando o fez. - Da próxima vez você não me verá...

– Quem garante? - ela abaixou a cabeça em seguida, desejando que houvesse muitos outros sustos e surpresas.
– Eu garanto - respondeu e prestou continência. - Mudando de assunto. Onde está o portifólio da Kimberly, eu não o vi quando você chegou...

Angel engoliu em seco, na pressa de chegar logo na escola ela se esquecera de pegá-lo. Olhou para Chris, os olhos cansados - Nossa! O que aconteceu?

Por mais que Chris estivesse feliz, pensar que Joe havia espancado-a novamente fazia seu sangue ferver, e a paciência não era uma das virtudes do moreno. - Não... Não me diga que ele... - Angel balançou a cabeça em negativa.
– Ele não fez nada, eu só... Não consegui dormir direito, só isso - queria ela que fosse verdade.
– Não precisa mentir para mim. Ele fez alguma coisa com você, olhe nos meus olhos e diga a verdade - ela desviou o olhar do de Chris, que sentou-se ao seu lado. - Você sabe que eu o odeio por causa disso, você deveria denunciá-lo, isso sim.

Angel já cogitara a idéia, mas chegara a conclusão de que de nada adiantaria. Quando o pai saísse da cadeia ele voltaria para casa para descontar o "atraso" na garota. E ela não agüentaria mais uma das "com vontade" dele, saíra muito machucada da última e evitava ao máximo merecer uma próxima - como se ele necessitasse de um motivo... - pensou.

As noites regadas à álcool e drogas eram comuns em sua rotina. O pai, principalmente, era um alcoólatra machista e a mãe uma mulher omissa. Baixava a cabeça e consentia com tudo, mesmo sabendo do que a filha passava, ao que era submetida.

– Angel... Olhe para mim, por favor - ela desviou os olhos e baixou a cabeça, não sabia o que responder. - Porque você aceita isso, porque não pode só denunciá-lo?

– Não dá... - ela não sabia como dizer, então optou por falar apenas. Que ele pense o que quiser. - pensou.

Na verdade Chris sabia sim o que acontecia com a menina, sabia que quanto mais tempo ela demorasse a denunciar o pai, mais tempo ela 'teria com ele'. Então pedia para que o denunciasse logo, gostava de Angel demais para ver o que ela passava sem dizer nada.
– Se você não denunciá-lo ainda essa semana, eu vou fazer – disse e se foi, deixando a morena em estado de choque e com medo.

Angelinne até pensou em ir atrás de Chris, mas ela sabia que quando o moreno tinha uma idéia fixa nada faria com que mudasse suas opiniões. Tremeu com medo.
O sinal bateu, faltavam poucas aulas para que ela pudesse enfim ir embora para casa.

Angel olhou em seu caderno, suas próximas aulas seriam de Educação Física.
Apesar de gostar da aula, era muito mais fácil vê-la observando do que jogando realmente. Preferia participar quieta, de forma que não ficasse exposta para que a vissem, temia que isso acontecesse.
Pegou seus materiais e foi para a quadra de esportes, sentou-se na arquibancada e aguardou o professor e os demais alunos.

Era até normal para ela chegar primeiro nas aulas, era uma boa aluna apesar de tudo. Dedicava-se aos estudos de forma que não lhe restasse mais tempo para muitas coisas como namoro ou festas, preferia ler ou andar.

Suas caminhadas eram longas, em geral ela escolhia a noite ou à tarde, depois da escola.
Quando se dispunha para correr, chegava tarde, muito tarde, por isso evitava isso. Mesmo assim, quando realmente julgava necessário, a morena encarava corridas de longos percursos. O trajeto não lhe importava, muito menos a distância, apenas evitava companhia. Gostava do silêncio, ele lhe acolhia como uma mãe acolhe um filho.

Imaginou se hoje poderia sair para correr ou mesmo caminhar, calculou quando os pais chegariam e viu que daria tempo de ir até a área menos povoada da cidade. Lá, de onde ela poderia ver o por do Sol sozinha.

A voz do professor anunciando os times de futebol a tirou de seus pensamentos. Dessa vez, e pelo menos dessa, Angel poderia ficar sozinha e por em ordem seus pensamentos, assim ela achava.

Olhou os garotos jogarem, percebeu que Kimberly a olhava, desviou os olhos e os fechou. Tornou a se lembrar do estranho sonho que tivera pela manhã.

Na maioria das noites em que dormia não sonhava, pelo menos não se lembrava dos sonhos pela manhã, eles simplesmente sumiam de sua memória, como se nunca tivessem existido. Às vezes, à tarde, ela tinha uma ou outra lembrança dos sonhos, nada muito concreto.
Eram apenas nuanças dos sonhos, uma ou duas imagens, mas hoje ela se lembrava com perfeição do sonho. Os olhos, principalmente os olhos... eles pediam perdão, eram tão reais!

Como ela queria poder sonhar com eles de novo, poder sentir tudo que sentira naquela mesma manhã. O professor se aproximou dela, era um homem novo, 32 anos.
Considerado bonito por muitas, inclusive Angel. – Tudo bem com você?
– Sim – a morena levantou a cabeça, olhando nos olhos castanho-escuros do homem. E ele se foi.

Ela sabia que a pergunta era resultante do fato que todos ali estavam sob sua responsabilidade, qualquer coisa que viesse a acontecer seria de sua responsabilidade e Carlos, o professor, já tinha muitas preocupações. Mais uma não seria bem vinda.

Angel acompanhou seus passos, viu quando Kimberly se jogou em cima do professor e afirmando que havia torcido o tornozelo. Aquilo era comum, alunas assediando-o, já se acostumara com o fato.

Mesmo que algumas alunas, como Kimberly, fossem bonitas, Carlos procurava alguém para casar. Segundo ele mesmo, já havia se divertido demais na vida, agora era o momento de procurar estabilidade com o casamento. Sabia que a escola em que trabalhava era o último lugar a se procurar uma pretendente, mas ele ainda assim arriscou o emprego com um beijo numa das professoras. Foi suspenso por dois meses.

Carlos olhou para a loira, ela era atraente, devia admitir, mas era uma atração que não passaria nunca disso. Kimberly não era para casar, ela servia apenas para uma noite de solidão e, mesmo assim, o moreno não se arriscaria novamente numa dessas aventuras no trabalho. Precisava do emprego mais do que de uma esposa, foi o que disse aos amigos quando se reuniram em seu pequeno apartamento alugado.

Reparou que as roupas que as líderes usavam estavam cada dia mais curtas, tanto que se podia ver quase tudo. Sorriu com a bronca que elas levariam mais tarde da diretora.
Era comum, elas sempre faziam isso e todos os dias a professora e diretora da escola lhes chamavam em seu escritório. Ele mesmo já presenciara várias vezes esses encontros nada agradáveis. Olhou para a quadra, Angelinne continuava quieta e distante dos demais alunos.

Ela sempre fora assim em suas aulas, apesar disso mantinha-se acima da média comum entre todos, que era baixa demais para sua opinião. Indo um pouco além, poderia até mesmo dizer que a menina era uma aluna exemplar, apesar de os outros professores discordarem nesse ponto, afirmando que ela conversava demais e arranjava brigas com as outras alunas.

Carlos sabia que era apenas para testá-lo, sabia que os outros professores haviam feito diversas tentativas de 'socializá-la', mas preferia deixar que ela decidisse qual o melhor momento para si. Não forçaria isso como os outros.





[N/a: Peço desculpas pela falta de atualizações na estória, mas tenho estado sem muito tempo para escrever.

Capítulo divido em duas partes, por enquanto. Essa é a primeira delas.
Para visualizar a estória completa, selecione o marcador (label) Angels Fall First.]

quarta-feira, 31 de março de 2010

Capítulo I (SPN)




Capítulo I

Tudo começou aquele dia, eu escrevia quieta enquanto todos conversavam e o professor pediu silêncio.

Faltavam apenas alguns meses para que eu me formasse. Mesmo sem perspectivas de uma faculdade, eu queria obter todo o conhecimento que pudesse absorver.

Minha mão corria pelo papel revisando o texto recém-escrito, porém eu ainda procurava prestar atenção à explicação do professor de química. Ele era um homem de meia idade, a caminho da calvície completa.
A baixa estatura aliada à barriga proeminente e os poucos fios de cabelo restantes deram-no a fama de solteirão, sempre paquerando as professoras mais jovens e até mesmo as alunas. Felizmente eu não me encaixava no seu padrão de beleza juvenil.

Com pouco mais de 1,60 metro e o corpo ainda em formação, eu não era bonita, e diversas garotas confirmavam isso diariamente.
– Menina-Monstro?! - uma das cheerleaders me chamava. Para elas eu era apenas uma mente capaz de resolver os problemas de álgebra e os cálculos em química e física, nada mais.

De certa forma, a ausência de beleza me ajudava a passar despercebida aos olhares masculinos. E eu agradecia por isso.

Olhei para Kimberly e ela me mostrou o portifólio com suas atividades por fazer, me levantei e fui até ela - Que dia?
– Amanhã mesmo - respondi-lhe a data em que lhe entregaria suas atividades respondidas, ela assentiu e eu voltei para minha carteira.

Essa era uma das formas que ganhava algum dinheiro, visto que o que meus pais ganham mal é suficiente para sustentar seus vícios: o álcool e as drogas. Tenho perfeito conhecimento de que eles furtam algumas notas quando acham que eu não estou olhando, tolos... Entretanto, eu prefiro permanecer calada a reclamar e sofrer ainda mais abusos do que já sofro, talvez até mesmo morrer.

O sinal indicou o término das aulas daquele dia -... Bom, é isso. E não se esqueçam de fazer os exercícios que passei - e o Sr. Damon se despediu com um sorriso malicioso lançado à Kimberly e se foi.

Arrumei meus materiais, com especial cuidado com o portifólio de Kimberly. Ainda me lembro de quando, num dia chuvoso, deixei-o cair e tive de pagá-lo mais tarde - e não foi nada, nada barato...

Fui andando para o estacionamento, não, eu não tinha um carro, mas a saída mais próxima era por lá e eu não queria me demorar a chegar em casa. Quando me aproximava do portão, Christian - um dos poucos hispânicos da escola e também um associado ao "clube dos esquisitões e rejeitados", como eu - veio ao meu encontro, trazia seu já conhecido sorriso no rosto. Parecia que nada pelo que passasse iria abalá-lo, como eu gostaria de ser como ele...


– Olá! - ele sorria ainda mais, isso acabou por me deixar pior mesmo eu não querendo demonstrar. Sei que doeria dizer que sentia saudades desse sorriso quando fosse embora, então preferia o silêncio. Pelo menos ele não sentiria tanto quanto eu.

– Oi - respondi simplesmente.
– Ah, vamos! Faltam apenas 3 meses para nos formamos e podermos ir conhecer o resto do mundo! - esse era seu maior sonho: conhecer cada país do mundo, conhecer cada cultura, cada dialeto... Enfim, ele era muito semelhante comigo nesse aspecto: quanto mais distante, melhor.

– Ótimo, para você... - ele pareceu confuso, não era muito acostumado ao meu sarcasmo natural.

E Chris - como prefere ser chamado - começou a contar seus planos de viagens, mesmo sabendo que eu não os ouviria.

Eu me importava muito com ele, e exatamente por isso me doía cada pensamento de que pudéssemos nos afastar. Não é isso que você pode estar pensando, não era amor, não. Era mais como uma amizade muito profunda, construída com base na confiança e necessidade mútua. Ok, isso pode sim definir amor, mas enfim, não era um amor "homem + mulher".

Andamos juntos e ele continuava a falar. Acredito que a família dele sofre muito com esse aspecto da personalidade de Chris, ele fala demais...

Continuamos a andar pelo quarteirão, até que Chris parou de andar e me olhou - sim, ele sabia que eu não estava prestando atenção a nada que ele falava, mas não era isso.
– Até quando vai ficar ai, calada? - ele me olhou mais intensamente e sorriu - Você aprontou que eu sei...! - o que ele queria dizer era que eu havia escrito algo durante as aulas.

Talvez o único ponto de discórdia entre nós era a exclusividade que ele exigia para com as minhas estórias. Ele deveria ser sempre o primeiro a lê-las, fossem ruins ou boas. - Não, eu não escrevi - sorri fraca.
– Mentira, eu sei que você escreveu - Admito, sou uma péssima atriz... Preciso melhorar isso.
– Ok, eu escrevi. Mas, dessa vez você não lerá - Fato. Sempre que eu começava uma estória e Chris a via, acidentes aconteciam e eu era impedida de terminá-la.
Lê-se: Meus pais ficavam sabendo e sim, Chris não é nada discreto.

– Por quê? - ele falou com a expressão extremamente ofendida. Posso até ser uma escritora amadora, mas Chris é um ótimo ator. Fica a dica para que as meninas não se envolvam com ele.

Por mais que não pareça, Chris é atraente (se eu disser isso à ele, com certeza ficará ainda mais convencido), porém não tanto quanto ele julga ser. Acho eu, que a única coisa que pode mudar a forma como as garotas o vêem, é um bom banho de loja.
É mais do que comum vê-lo usando camisas espalhafatosas e muito coloridas, ele diz que é a forma que encontrou de se orgulhar de suas raízes. Eu digo que Porto Rico não é o mesmo que Brasil, mas ele não compreende - ou me ignora; eu particularmente acho que é a segunda opção.

– Você sabe por que - um olhar de cachorro pidão foi a resposta que obtive. Definitivamente ele é um ótimo ator.
– Juro que não sei Angel. - ele sorriu, me convencendo por fim a mostrar-lhe a estória.
– Eu mostro... - ele ergueu os braços comemorando e me interrompendo. Puxei sua camisa alertando-o das pessoas que nos olhavam com expressões de: "Quem são esses loucos?!".
– Ooops... - sorriu e eu bufei.
– Eu mostro com a condição de que seja lá em casa. Meus pais chegam daqui a pouco, isso se não já chegaram, e eu tenho muito que fazer - só percebi o que havia dito depois que já era muito tarde. Ele sorriu com a dupla conotação da frase, e foi ignorado.

Seguimos andando, cada vez mais eu apertava o passo queria chegar logo em casa e fazer as atividades de Kimberly para poder cuidar das minhas. Também sabia que se não chegasse logo em casa, Chris me levaria novamente à uma lanchonete para conversarmos e queria a todo custo evitar proximidade com ele.

– Você não vai me mostrar, não? - ele falou com uma voz carregada de sotaque e manha. E o pior de tudo era ele saber que me dobraria facilmente com isso.

Sim, eu gosto do sotaque hispânico dele, fato. E quando é somada a fala manhosa no "pacote", eu acabo (querendo, ou não) fazendo o que ele quer, fato.

Sentei-me no meio-fio e abri minha mochila, lá estavam os escritos. - Muito cuidado, manusear com as mãos limpas, não comer próximo à eles, não ler em voz alta, dedicar atenção total à limpeza do ambiente antes de removê-los do envelope - repetimos juntos.

Sim, para que eu permitisse (como se eu pudesse impedi-lo) a leitura das minhas estórias eu exigia cuidado máximo quanto à limpeza e organização. Até porque eu raramente fazia cópias e pretendia sempre tê-los por perto.

Ele pegou o envelope de papel pardo sorrindo triunfante e colocou em sua mochila, depois se sentou ao meu lado - Sabia que eu te amo? - ele disse.
– Claro, tanto quanto eu prefiro sorvete de morango - sarcasmo. Eu era a única pessoa que ele conhecia que preferiria sorvetes de gostos duvidosos (literalmente), lembro-me que uma vez escolhi um sorvete de chocolate e achei horrível, fiquei imaginando como as pessoas poderiam gostar daquilo... É tão... Estranho.

Chris fez uma expressão de quem se sente ofendido. O motivo: ele simplesmente A-M-A sorvete de morango. Total, é uma paixão platônica. Revirei os olhos e me levantei.

Peguei minha mochila e comecei a andar de novo, Chris apenas me olhava. - Ué? Não vai vir, ainda não chegamos às nossas casas... - só então ele pareceu perceber que estávamos sentados no meio-fio em algum lugar perto da escola, o que não era nada seguro.
Não que eu ligue muito para segurança, nunca a tive, mas ligava para Chris, que fora criado em família. Ele levantou-se e recomeçamos a andar, dessa vez em silêncio (por um milagre divino ele calou-se).

Andamos mais alguns quarteirões até que chegamos à sua casa. Seu irmão mais velho e seu avô estavam sentados na varanda conversando, eram uma família. - Não quer entrar? - ele me perguntou.
– Não, obrigada. Tchau. - acenei e fui andando, mas podia sentir seus olhos cravados às minhas costas, segui sem olhar para trás.

Andei mais rápido, queria logo chegar em casa para não ter de prestar (mais) satisfações de onde estava, com quem e fazendo o que. Conforme andava as pessoas olhavam para mim com o rosto indiferente, mas cedo ou tarde eu teria de me acostumar, afinal, a vida em outro país não é exatamente o que todos acham: glamour e dinheiro, não, muito pelo contrário.

Caso fosse pega pelos policiais da fronteira, além de deportada, poderia (e com certeza seria) ser presa. Agora ficaria muito linda na pose para as manchetes policiais: "... Mais uma imigrante ilegal é presa. Ela alegava sair do país para estudar...", não quero nem imaginar o que fariam comigo na cadeia.

Enfim, essa é a realidade quando se é "classe média" num país onde só há faculdades particulares e seus pais não ligam a mínima para você.
Antes que pense, não sou uma pessoa revoltada, até creio que o contrário: não ligo muito para nada, exceto os livros e cadernos, eles são meus amigos verdadeiros.

Geralmente as pessoas vêem em seus cadernos apenas um objeto no qual se pode inserir informações, mas eu não faço parte dessa classe dominante. Tanto que cuido com o máximo de zelo possível os meus. As mesmas recomendações que disse à Chris valem para mim, talvez até mais rígidas.


Cheguei em casa, não é o local mais lindo do mundo, muito menos o mais feliz, mas isso não tira o título de "lar". Procurei minha chave e logo entrei, queria fazer tudo que devia fazer para me livrar de mais broncas e reclamações.

A vizinhança não era lá das melhores, mas também não chegava a ser aconselhável sair dali. Pelo menos não ainda.

Fui para meu quarto (se é que aquilo pode ser chamado de quarto...) e deixei meus materiais na mesinha de estudos. Olhei ao redor, eu sentiria saudades disso aqui muito em breve - eu sei, parece conversa de quem está prestes a ser executado, mas o que eu faria não passaria tão longe disso.

Angelinne Salazar


[N/a: A partir desse ponto a estória começará a realmente ser desenvolvida. Tanto que a princípio ela poderá parecer cortada, mas em breve esse recuo será explicado e justificado.

Para ver a estória completa, selecione o marcador (label) Angels Fall First.]

sábado, 20 de março de 2010

Prólogo II (SPN)






Prólogo II


Angelinne andava lentamente, pensando em tudo que já vivera, imaginando se tudo aquilo valia a pena.

A praça estava deserta, a não ser por ela e seus pensamentos. Sentou-se no banco e deixou a cabeça pender para trás, recostando-se na madeira pintada.

Tudo que ela queria era silêncio, tudo que queria era paz, tudo que tanto ansiava era solidão. Pelo menos uma vez ela não desejava alguém para ouvi-la. Morrer seria mais fácil, concluiu.

As dúvidas que a assolavam em sua maioria eram derivadas do fato de ela não saber o que queria ser, não havia planejado um futuro. Ou pelo menos não um futuro tão próximo... Estava numa fase decisiva em sua vida, não poderia mais permanecer imparcial, tinha de escolher um dos caminhos. E o pior, tinha de escolher sozinha. Era um tiro no escuro, uma armadilha muito bem armada por um caçador muito experiente: ela mesma. Ninguém a conhecia melhor do que ela, seus temores, seus segredos, seus desejos... Tudo.

Quanto mais ela chegava a essa conclusão mais confusa ficava. Quanto mais ela não admitia que preferiria mil vezes já ter suas decisões tomadas antes mesmo do nascimento, como nos filmes que já assistira diversas vezes, onde as filhas são prometidas ainda bebês e antes de conhecer o noivo já o repugnam, mas no fim eles se casam e são felizes para sempre; mais preferiria viver apenas no papel, como suas estórias.

Um termo que ela não conhecia: felicidade. Até chegava a achar que não nascera para casar-se com um príncipe encantado como as Cinderelas dos contos de fada. Por mais que seu lado sonhador dissesse que ela possuía um, seu lado racional dizia que aquilo era tão real quanto Papai Noel e Coelhinho de Páscoa.

E era essa briga que a levava a toda a confusão mental, a briga entre ela vs. ela mesma. Como Coringa e Batman, Polícia e Ladrão, Preto e Branco, Bem e Mau...

O que sentia cada vez que uma de suas personagens vivia era indescritível, chegava a ver cada expressão, por muitas vezes sentia o que se passava na mente de cada uma das personagens durante as cenas. Isso as tornava tão reais quanto sua própria realidade. Às vezes, quando as mortes se faziam extremamente necessárias, ela as escrevia e reescrevia várias vezes, buscando uma forma não tão utópica de evitar aquela morte, mas ela sabia que mais cedo ou mais tarde aquilo seria inevitável.

Sofria quando separava seus casais, sorria quando os reunia...

Sua relação com a escrita era de necessidade, viver tudo aquilo - mesmo que na fantasia - lhe era necessário tanto quanto o ar, talvez até mais. Nas letras ela podia viver em qualquer lugar no mundo, falar qualquer idioma, possuir qualquer beleza, sorrir... Algo tão simples e tão necessário.

O ser humano precisa manter uma certa quantidade de sorrisos e alegrias diários para viver, a quantidade varia de pessoa para pessoa, mas todas sem exceção precisam dessa cota, a de Angel nunca fora cumprida com êxito.

Sua realidade era tão avessa à alegrias que ela mesma se espantava quando ria com alguma bobagem que Chris dizia, era algo novo para ela, novo e raro, que não deve ser desperdiçado.

Apesar de tudo ela ainda se permitia sonhar, e era tão somente por isso que ainda vivia, somente assim poderia escrever. E sonhando poderia viver.

Uma fórmula complicada para uma garota de apenas 17 anos, quase 18. Ela mesma admite que não seja compreensível para todos, nem mesmo para ela.

Ouviu um farfalhar de asas e voltou sua cabeça para a frente, mas não havia nada ali. Procurou por qualquer coisa que tivesse asas, mas nada encontrou. Balançou a cabeça afastando aqueles pensamentos, já havia coisas no que pensar e ter alucinações não a ajudaria em nada - Não enlouqueça, não agora.

Apanhou sua mochila e levantou-se, em seguida começou a andar de volta para casa, seu pesadelo.

Conforme andava, sentia olhos cravados em suas costas, medindo seus movimentos, a forma como olhava às pessoas. Temeu que realmente estivesse enlouquecendo. - Calma, é só uma impressão - ela dizia baixinho, mas já não acreditava que fosse apenas isso. O vigor de seus passos aumentava cada vez mais, e ela descobriu-se imensamente longe de casa, uma distancia que não teria tempo de percorrer apenas numa caminhada, começou a correr.

As pessoas olhavam para ela pensando no quão atrasada aquela jovem estaria, mas sequer imaginavam que ela realmente tinha o que temer.




***


[N/a: A estória vai parecer cortada, mas esse recuo de tempo entre esse prólogo e o primeiro capítulo será explicado em breve.

Para ver a estória toda selecione o marcador (label) Angels Fall First.]

sexta-feira, 19 de março de 2010

Prólogo I (SPN)





Prólogo I


Eu seria uma garota normal, eu teria uma vida normal. Bom, pelo menos eu deveria, eu acho...

Tudo começou quando escrevi mais uma de minhas estórias... Daí até conhecê-lo foi necessário apenas um breve momento.

Junto com ele vivi os extremos de cada sentimento; dor, ódio, indiferença... Sobretudo, o mais puro de todos: o Amor.

As pessoas dizem que todos têm o seu "... e foram felizes para sempre...", e hoje me pergunto por que apenas eu não o tive como as demais pessoas.


Chega um ponto na vida que se você não fala o que pensa - sejam por palavras escritas ou faladas, você começa a definhar. Deixando se levar por tudo aquilo que não foi dito, mas que você sabe existir.
Creio que esse dia chegou para mim, e venho através deste pequeno grande relato contar uma estória de amor que não teve um final feliz.


Angelinne Salazar




[N/a: O prólogo é composto de duas partes, essa é a primeira e mais curta.
Devo postar a outra parte em breve, que trata da vida em geral da Angelinne, narrada em 3ª pessoa.

Para visualizar a fic completa, é só escolher o Marcador (label) Angels Fall First.]

quarta-feira, 17 de março de 2010

Angels Fall First (SPN)



Shipper:
Castiel/PO
Classificação: NC-18 (diversos)
Tipo: Sobrenatural
Spoiller: - Em plano alternativo -

Sinopse:

Os seres humanos narram seus medos de forma a camuflar a verdadeira estória por trás deles. Eu descobri sua face verdadeira, mesmo desejando não tê-lo feito.


Informações Adicionais:

» Apenas o primeiro capítulo será narrado em POV's. Para que todos possam compreender a forma de pensar da personagem principal (Angelinne).

» Não está completa, então peço paciência e muitos comentários.

» Minha primeira fic séria de Supernatural, quero saber realmente o que acham dela.

» Contém uma personagem original compondo o Shipper.

» Classificação +18 por conter cenas fortes e um enredo nada romantico.

» Sim, a estória foi inspirada na música Angels Fall First do Nightwish. Não foi coincidência.

» Sem previsão de estréia, mas quanto mais comentários a estória receber, maiores as chances de ser postada em breve.


Angels Fall First
"... Uma estória sobrevive, nasce uma lenda..."

Por: Perséfonne Moon
Beta: Dora Russel

sábado, 6 de março de 2010

An Angel (SS/PO)



Os olhos negros corriam de rosto em rosto, mas buscavam apenas um par de olhos castanho-escuros, que ele sabia que nunca mais poderia ver ou tocar.

Suas relações eram puramente sexuais, apenas por prazer e necessidade. As diversas mulheres que passaram por seu leito eram pagas para fazê-lo, e muitas ele tinha certeza que nunca mais o veriam.
As noites notórias de ressaca eram apenas interrompidas pelos chamados do Lord das Trevas, aos quais ele deveria comparecer com rapidez. Sempre imaginara se poderia ser amado por alguém que não o visse como um Comensal, mas sim como o homem que ele poderia ser.

E suas noites eram regadas a sexo e álcool, sempre resultando em terríveis dores de cabeça e ressacas que eram terminadas com uma poção para dor e outra para concentração.

Os anos de espião custaram-lhe muitos machucados, tanto físicos quanto psicológicos. Lord Voldemort gostava de torturá-los até que implorassem por um fim breve, que nunca chegava. Aquele que já fora o mais brilhante aluno de Hogwarts se transformara em um ser sedento por poder.
Nunca se importando com regras ou costumes, sem limites nem qualquer traço de medo ou angústia. Criado como órfão, Tom Riddle havia conhecido a face da miséria e se prometera nunca mais sentir aquilo, fosse preciso fazer o que fosse.

Severus Snape fora apenas mais um dos iludidos pela ambição do Lord. Mas aos poucos conquistou prestígio entre os demais servos, sendo cada vez mais próximo ao Lord, conhecendo seu passado e suas fraquezas, destruindo-o com suas próprias armas, usando de seus próprios métodos. Ferro com ferro, fogo com fogo.


Até, que um dia conhecera Sophie, ainda como Aurora em Hogwarts. Ela cuidara para que as proteções da escola não ruíssem diante a ira de Lord Voldemort, mas, mesmo com seu talento nato e poder ela não conseguira grandes resultados. Fizera o que pudera enquanto bruxa, deixando uma memória pura para ser sempre lembrada aos alunos e principalmente para certo professor de Hogwarts.

Severus continuou a andar, sua vida se fora assim que a de Sophie deixara se corpo. O que mais lhe magoava era o fato de que ela morrera em seus braços sem que ele pudesse fazer qualquer coisa. Não havia tempo para preparar uma poção ou para realizar um feitiço para fechar os ferimentos. Foi a primeira vez que Snape chorou.

Agora ele não se permitia mais viver, buscando a todo custo a morte. A princípio foram meses vagando sem descanso pelos terrenos de Hogwarts, somente uma pessoa sabia onde estava e como estava. Hermione Granger fora a única que não o condenara por não impedir a morte da esposa, ajudando-o sempre que o via com roupas e comida, mas Severus não queria depender da ajuda de alguém por isso decidira deixar Hogwarts definitivamente.

No dia em que decidira ir embora ele fora onde Hermione e ele sempre se encontravam: A Casa dos Gritos, de onde não possuía boas lembranças desde os anos em que era aluno em Hogwarts, quando Sírius armara uma armadilha para que Lupin o ferisse. Mas agora era aquele o único lugar onde poderia ir sem ser perturbado por alunos ou mesmo professores, exceto a Srta. Granger.

No fundo ele queria provar para sim mesmo de que ainda havia alguém que lhe dedicava atenção e cuidados, gostaria de despedir-se dela como sinal de gratidão e também para lembra-se de Sophie nos olhos castanhos de Hermione.


Era madrugada quando Hermione foi à Casa dos Gritos. Já se acostumara a andar a noite em suas vigílias noturnas, ainda mais depois que descobrira que seu antigo professor vagava por ali há meses. Ajudava-o sempre que o via, já saia da escola com roupas e comida todos os dias, sempre na esperança de que ele a visse como mulher e não mais como aluna, mas ele nunca demonstrara nada além de um profundo respeito e alguma gratidão.

Severus se lembrava muito bem na causa da grande mancha de sangue no chão do segundo piso - Sophie... - suspirou cansado com a dor que ver seu sangue ali lhe causava. Queria poder ter tido a chance de salvá-la, mas isso também lhe fora privado: a vontade própria.

Quando Hermione chegou a casa e o viu à espera dela, sentiu que aquela seria sua última chance de dizer o que sentia por ele e suas verdadeiras intenções. Chegou a começar a dizer, mas não conseguira terminar de proferir as palavras, Severus se fora ao menor piscar de olhos. Deixando-a sozinha e chorando com medo de nunca mais vê-lo.


Agora já fazia meses que ele abandonara a Srta. Granger na Casa dos Gritos. Se sua visão do mundo mudara, ele não sabia. Apenas sentia que devia impedi-la de se deixar levar por ele, mesmo ele se implorando internamente para que ela o amasse Severus sabia que qualquer coisa que Hermione viesse a sentir por ele seria derivada do respeito com o qual ele a tratava. - Nada mais do que admiração pela figura masculina, nada mais.

Parou de andar por um momento, sentindo os olhos castanho-escuros de Sophie sobre si. Buscou-os em meio a multidão de rostos pálidos e macilentos, mas não os viu. Suspirou em sinal de desesperança e seguiu seu caminho, ainda buscando-a.


***


A jovem esposa e mãe olhava para fora pela janela de sua casa, imaginando que caminhos seu amor havia tomado, imaginando as noites em que ele pudesse ter adoecido, e sempre evitando a idéia de que ele pudesse não ter sobrevivido sem seus cuidados. Seria demais para uma mulher grávida, ainda mais quando o marido está sempre por perto, certificando-se de que Hermione estivesse segura e saudável.
Rony cuidara para que Hermione não tivesse nenhum esforço físico durante a gestação. Ela até já desconfiara se o marido zelava mais pela vida do bebê do que pela dela, apesar das desconfianças ele sempre desconversava, dizendo que era impressão dela.

Uma neblina encheu a rua com o ar frio de inverno, fazendo com que Hermione fosse se deitar.


***


Em outro país Severus Snape se sentava num banco de praça. As roupas não eram negras apenas por gosto, mas sim em demonstração do eterno luto que ele fazia em honra à Sophie.

Hoje se lembrava com pesar dos poucos momentos que passaram à sós, esperando sinceramente que ela engravidasse para manter a linhagem Snape sobre a Terra. Ainda não tinha certeza de que, se soubesse o fim da estória, a permitiria engravidar, não suportaria saber que sua esposa e filho - ou filha, lembrou-se, tivesse morrido com a mãe. Também não gostava da idéia de que pudesse criá-los sem a presença alegre de Sophie na família, nunca se imaginara nessa situação nem gostaria de vivê-la em qualquer momento. Já bastava a dor de perdê-la.

Viu crianças brincando com suas mães no parquinho próximo do banco, elas sorriam alegres com a simplicidade com que resolviam cada enigma com sorrisos e olhares vívidos. Viu ainda um garotinho dar algumas flores para a mãe, viu a surpresa com que ela reagiu e o abraço apertado que recebera do filho.

Nunca parara para perceber como a beleza pode estar nas coisas mais fáceis e simples da vida, nem tudo precisa ser caro e perfeito para ser belo.

Concentrou-se num livro que trazia sob as vestes - A menina que roubava livros.
Literatura trouxa não era a sua preferida, mas era o que dispunha para saciar a sede de conhecimento. Desde que chegara ao Brasil se concentrara em conseguir um emprego decente e manter-se sóbrio - o que não fizera muito bem nos últimos meses.

Enquanto seus olhos corriam pelas frases e páginas do livro uma criança se aproximou dele e ficou observando-o. Com a mesma perspicácia dos tempos de espião, Severus logo percebeu a companhia, mas resumiu-se em ignorá-la. O menino permaneceu calado todo o tempo, apenas observando Severus ler o livro e imaginando o motivo que o guiara a fazê-lo. Já era tarde quando Severus perguntou o que o menino desejava.
– Nada. - ele respondeu e continuou a fitá-lo. Um pouco incomodado com os olhos do garoto sobre si, ele perguntou sobre a mãe do menino.
– Não sei, mas algo me diz que você me procura.

Snape encarou longamente o garoto que correspondeu ao olhar com sinceridade. Reconheceu que se lembrava vagamente daquelas expressões em outro rosto, um rosto feminino. O espanto formou-se na face macilenta de Severus.

Nunca acreditara em reencarnação, mas a prova concreta estava diante de si. - Qual é o seu nome?
– Joseph. E o seu? - o menino perguntou com inocência, apesar de já saber o nome de Severus.
– Severus. - o menino assentiu e voltou seu olhar para as árvores que rodeavam o parque em que estavam. Em algumas horas iria anoitecer, mas Joseph não se importava com esse fato.

Severus continuou a olhar o menino, até que seguiu seu olhar até a outra extremidade do parque, onde Sophie lhe sorria. Um sorriso simples, porém marcante. Ele sentiu o cheiro de rosas e em seguida fechou os olhos para sentir melhor o perfume de sua amada, quando os abriu ela não estava mais lá e uma criança sorridente estava ao seu lado.



An angelface smiles to me
Under a headline of tragedy
That smile used to give me warm
Farewell - no words to say
Beside the cross on your grave
And those forever burning candles...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Tempestade (SS/HG)




Está escuro, vejo somente o luzir das grossas gotas de chuva forrarem o chão, criando um tapete de lágrimas angelicais.
O Silêncio é tão profundo que ecoa em minha mente, dando a impressão de que estou presa, mesmo sabendo que não estou.

Um trovão, o som ofusca o das lágrimas, criando uma sinfonia melancólica.

Ao longe posso ouvir o farfalhar das árvores sob o constante contato com as correntes de água e de ar. Ouço passos ecoando nesse Silêncio, causando-me medo e apreensão. Sigo em direção contrária à que os ouço o mais silenciosamente possível, procurando não expor minha presença ao meu invasor.

Agora meus cabelos, já muito molhados pela chuva, são levados pelo forte vento que anuncia uma tempestade, de raios ou de lembranças, eu não sei. Meus pés descalços tateiam o solo em busca de apoio, mas nada encontrei, apenas os restos férteis de folhas e lama.

Outro trovão, assuto-me com seu som, o vento começa a ficar ainda mais forte, aumentando o barulho proveniente das árvores. Apresso meus passos ainda à procura de algum lugar para ficar até o fim dessa tempestade, não encontro nada.

Sinto o cheiro de maresia; cheiro de ferrugem e sal. Ouço os passos se aproximando , rasgando as folhas sob seus pés, apresso ainda mais os meus.

Perguntas afloram em minha garganta e sinto vontade de gritar, então paro e me viro. Posso ver agora quem me seguiu.

As íris tão negras parcialmente escondidas por uma máscara reluzente. Não sinto mais medo, apenas vontade de me atirar em seus braços, pois sei que ele está aqui para me salvar.

Mas não consigo, sinto meu corpo cair e o chão desaparecer, eu me permiti cair para não sofrer nas mãos dele.
Meu corpo afundando na água tão escura quanto tudo ali, a última coisa que vi foi um relâmpago, iluminando sua face carregada, em seus olhos a desilusão de me perder.



Alguns meses depois...


O telefone toca em Spinner's End, um homem vestido de luto atende - Encontramos um corpo, precisamos que venha fazer o reconhecimento - uma lágrima solitária caiu de suas pálpebras e ele colocou o telefone no gancho.



Horas depois...
 

Snape estava de frente à um caixão de madeira escura, ornamentado com flores disformes ao longo de si. Ele não chorou...

Ele não queria sair dali, queria ele estar no lugar dela. A passos indecisos ele avançou para o caixão, deixando uma rosa sobre ele, em seguida saiu.

Sem rumo nem destino à seguir.

Na lápide jazia:



Hermione Granger Snape

Nascimento: 19/09/1979
Óbito: 31/01/2005

"...Mas, quando agora atrás
dele tudo se fecha, são jardins
outra vez, e os dezesseis sabres
redondos que sobre ele saltam,
raio sobre raio, são uma festa..."


Maria Rilke, Rainer

sábado, 9 de janeiro de 2010

Boneca de Porcelana (EC/RH)





 
One-Shot Twilight
Emmett e Rosalie
 


Os olhos vazios e opacos, a expressão desprovida de sentimentos. A cópia exata de uma boneca de porcelana - de uma beleza inumana e inatingível, delicada e absolutamente quebrável -.
Ela permanecia em sua embalagem de forma que a poeira e, até mesmo o oxigênio não pudessem tocá-la. Causando inveja e admiração por onde fosse levada, arrancando suspiros exasperados dos homens que tentavam conquistá-la - como um prêmio -.
Ela permanecia impecavelmente bem trajada graças a Alice, já que ela mesma descuidara-se de seus cuidados pessoais, entregando-se cegamente ao leito. Recoberta por um vestido elegante, vermelho como sangue, espelhando-se nos lábios carnudos; enquanto o braço direito pendia debilmente para fora da cama, dando-lhe um ar ainda mais despreocupado.
Ouviram-se sussurros no andar inferior, sussurros esses, que ela não fez questão de dar atenção. Os passos pesados, ecoando no piso de madeira escura e brilhante, os passos cessaram-se e ouviu-se uma batida leve na porta do quarto de Rosalie, tirando-a do torpor que se encontrava, dando lugar à expectativa.
Os olhos levemente esverdeados buscaram os azuis, sentindo o rastro do perfil de Rosalie no ambiente - bonito e vazio, exatamente como ela era e se sentia atualmente -. Os traços sutis da presença sensual e envolvente, os cabelos loiros em contraste harmonioso com o vermelho escarlate dos trajes e dos lábios. O corpo escultural de pele aveludada ansiava por seu toque, implorando para que a possuísse.

***

A vivacidade deixara seu ser a muito, seus pés descalços e sujos galgavam às margens do rio que banhava os terrenos da casa. Nas mãos ela trazia uma rosa, seus dedos passeando pelas pétalas, dando-lhes seus últimos minutos juntos. Os braços musculosos abraçaram-na em sua cintura, puxando-a para o alto, fazendo com que os cabelos esvoaçassem à brisa gélida do brilho da lua.
Sorriu, em muitos anos sorriu, seus olhos refletiam o que seu interior já não mais demonstrava. Seus braços buscando o corpo másculo de Emmett junto ao seu, numa fome insaciável um do outro.

***

Fazia 20 anos que tudo havia ocorrido e ela ainda guardava aquela rosa junto à cabeceira de sua cama. Sempre dormia e acordava tendo seus olhos junto a ela. A decoração predominantemente branca do ambiente iluminava ainda mais os cabelos, agora, branqueados.
– Eu te amo! - ela ouviu de uma voz sôfrega e de um único fôlego. Havia necessidade e urgência no tom, os olhos ainda vívidos tornaram a assumir o aspecto vazio, as pálpebras estáticas e os olhos perdidos em algo distante, algo que somente ela compreenderia em toda sua perfeição e complexidade, pois, somente ela era perfeita, como uma verdadeira boneca de porcelana, de beleza pura e intocável.