A mão esquerda virava a página do livro enquanto a direita redigia as respostas corretas numa folha à parte. Terminaria em breve, restava apenas passar as respostas para seus devidos lugares e ela poderia, enfim, descansar.
Angel não sabia o motivo, mas sentia-se cansada. Exausta, para ser mais específica. Procurar as sentenças corretas naquelas páginas tornava-se tarefa cada vez mais difícil, e ela pressentia a hora em que seu organismo forçaria o descanso.
A luz clara da luminária não era o suficiente para mantê-la acordada, e seu corpo relaxou.
Imagens difusas; nada muito concreto. Porém, ela poderia identificar perfeitamente dois olhos azuis fitando-a.
Não havia tom de repreensão, nada, apenas... Medo. Sim, havia medo naquele olhar.
Comoveu-se com a beleza das íris azuladas, era sim a coisa mais bela que ela jamais vira. Não sabia o motivo, apenas havia a certeza de que ele era uma realidade da qual ela sonhava integrar.

O rosto angelical - sim, esse seria o termo correto para defini-lo. Belo como um anjo - crispou-se quando ela aproximou-se, mas seus olhos mantinham a mesma aura amedrontada. E Angel precisava tocá-lo, dizer-lhe que não havia motivos para temer.
E como se o anjo pudesse ler seus pensamentos ele negou que houvesse motivos - Eu sei, mas e você?
A princípio ela achou que não era com ela, mas conforme a certeza chegava, ela acabara respondendo que ficaria melhor. - Você é tudo que me importa, por favor, me perdoe... Eu... Eu queria poder fazer algo mais, mas eu não posso...
Ela se sentia culpada com tudo aquilo, mesmo sem saber o que estava acontecendo. Olhou-o mais uma vez nos olhos e contemplou o céu azulado que a aguardava. Sorriu contente como uma criança, então sentiu a vida deixando seu corpo. Não sentiu medo, apenas angústia por deixá-lo sofrendo.
Para ela, a morte era apenas o início de tudo. Acostumara-se a pensar dessa forma desde cedo, quando as esperanças morriam lentamente conforme sentia a pele se rasgando sob olhos irados do pai e o sorriso indiferente da mãe. Acostumara-se a esperar pela morte a cada dia, finalmente teria seu descanso.
Sentiu o calor do abraço do anjo e então dormiu, dessa vez para sempre...
Angel acordou agitada, notou que tudo estava da mesma forma que ela deixara, exceto pelo fato de estar deitada em sua cama. Ouviu uma agitação na casa e perguntou-se quantas horas seriam.
Sentou-se na cama e olhou para seu despertador. Já era manhã.
Os olhos espantaram-se. Se não se apressasse perderia a hora do início das aulas e, principalmente, seria forçada a ficar em casa, visto que não havia lugar a frequentar às 06:30 da manhã.
Arrumou-se da melhor forma possível e saiu pela porta dos fundos, desejando que não a tivessem visto. Suas pernas não obedeciam ao comando de correr. Mesmo tendo dormido ainda continuava cansada, temia uma gripe justo agora.
Faltavam dois minutos para que os portões se fechassem quando ela chegou a portaria, sorrindo sem graça o porteiro deixou que entrasse sob a promessa de nunca mais se repetir. Ao longe a diretora observava tudo com ar repreensivo, odiava alunos que saiam de casa no último minuto e quando não lhes era permitido entrar na escola, os pais vinham reclamar-lhe que seus filhos eram ótimos alunos e seu único argumento era dizer que sentia muito e calar-se.
Angel entrou na sala exatamente quando o Sr. Damon iria entrar, ele a encarou com rosto inexpressivo. Isso, para ela, era pior do que ser levada à coordenação da escola e ter sua ficha manchada, a indiferença era o que mais lhe doía.
Entrou na sala encolhida, cabeça baixa, sendo exatamente ela: um nada. Sentou-se na carteira mais distante possível e acompanhou a aula com o olhar distante, a mente presa à memória de dois lindos olhos azuis.
***
A aula de química acabara cedo e Angel estava sentada no pátio, o olhar ainda distante.
Chris aproximou-se dela silencioso - Eu sei que você está ai, Chris - o garoto pareceu surpreso, ainda mais pelo fato de Angel nunca ter percebido o susto que a aguardava sempre que estivesse quieta.
– Como? - Chris perguntou e ela apontou para frente. Demorou um tempo para que Chris percebesse sua sombra, riu quando o fez. - Da próxima vez você não me verá...
– Quem garante? - ela abaixou a cabeça em seguida, desejando que houvesse muitos outros sustos e surpresas.
– Eu garanto - respondeu e prestou continência. - Mudando de assunto. Onde está o portifólio da Kimberly, eu não o vi quando você chegou...
Angel engoliu em seco, na pressa de chegar logo na escola ela se esquecera de pegá-lo. Olhou para Chris, os olhos cansados - Nossa! O que aconteceu?
Por mais que Chris estivesse feliz, pensar que Joe havia espancado-a novamente fazia seu sangue ferver, e a paciência não era uma das virtudes do moreno. - Não... Não me diga que ele... - Angel balançou a cabeça em negativa.
– Ele não fez nada, eu só... Não consegui dormir direito, só isso - queria ela que fosse verdade.
– Não precisa mentir para mim. Ele fez alguma coisa com você, olhe nos meus olhos e diga a verdade - ela desviou o olhar do de Chris, que sentou-se ao seu lado. - Você sabe que eu o odeio por causa disso, você deveria denunciá-lo, isso sim.
Angel já cogitara a idéia, mas chegara a conclusão de que de nada adiantaria. Quando o pai saísse da cadeia ele voltaria para casa para descontar o "atraso" na garota. E ela não agüentaria mais uma das "com vontade" dele, saíra muito machucada da última e evitava ao máximo merecer uma próxima -
como se ele necessitasse de um motivo... - pensou.
As noites regadas à álcool e drogas eram comuns em sua rotina. O pai, principalmente, era um alcoólatra machista e a mãe uma mulher omissa. Baixava a cabeça e consentia com tudo, mesmo sabendo do que a filha passava, ao que era submetida.
– Angel... Olhe para mim, por favor - ela desviou os olhos e baixou a cabeça, não sabia o que responder. - Porque você aceita isso, porque não pode só denunciá-lo?
– Não dá... - ela não sabia como dizer, então optou por falar apenas. Que ele pense o que quiser. - pensou.
Na verdade Chris sabia sim o que acontecia com a menina, sabia que quanto mais tempo ela demorasse a denunciar o pai, mais tempo ela 'teria com ele'. Então pedia para que o denunciasse logo, gostava de Angel demais para ver o que ela passava sem dizer nada.
– Se você não denunciá-lo ainda essa semana, eu vou fazer – disse e se foi, deixando a morena em estado de choque e com medo.
Angelinne até pensou em ir atrás de Chris, mas ela sabia que quando o moreno tinha uma idéia fixa nada faria com que mudasse suas opiniões. Tremeu com medo.
O sinal bateu, faltavam poucas aulas para que ela pudesse enfim ir embora para casa.
Angel olhou em seu caderno, suas próximas aulas seriam de Educação Física.
Apesar de gostar da aula, era muito mais fácil vê-la observando do que jogando realmente. Preferia participar quieta, de forma que não ficasse exposta para que a vissem, temia que isso acontecesse.
Pegou seus materiais e foi para a quadra de esportes, sentou-se na arquibancada e aguardou o professor e os demais alunos.
Era até normal para ela chegar primeiro nas aulas, era uma boa aluna apesar de tudo. Dedicava-se aos estudos de forma que não lhe restasse mais tempo para muitas coisas como namoro ou festas, preferia ler ou andar.
Suas caminhadas eram longas, em geral ela escolhia a noite ou à tarde, depois da escola.
Quando se dispunha para correr, chegava tarde, muito tarde, por isso evitava isso. Mesmo assim, quando realmente julgava necessário, a morena encarava corridas de longos percursos. O trajeto não lhe importava, muito menos a distância, apenas evitava companhia. Gostava do silêncio, ele lhe acolhia como uma mãe acolhe um filho.
Imaginou se hoje poderia sair para correr ou mesmo caminhar, calculou quando os pais chegariam e viu que daria tempo de ir até a área menos povoada da cidade. Lá, de onde ela poderia ver o por do Sol sozinha.
A voz do professor anunciando os times de futebol a tirou de seus pensamentos. Dessa vez, e pelo menos dessa, Angel poderia ficar sozinha e por em ordem seus pensamentos, assim ela achava.
Olhou os garotos jogarem, percebeu que Kimberly a olhava, desviou os olhos e os fechou. Tornou a se lembrar do estranho sonho que tivera pela manhã.
Na maioria das noites em que dormia não sonhava, pelo menos não se lembrava dos sonhos pela manhã, eles simplesmente sumiam de sua memória, como se nunca tivessem existido. Às vezes, à tarde, ela tinha uma ou outra lembrança dos sonhos, nada muito concreto.
Eram apenas nuanças dos sonhos, uma ou duas imagens, mas hoje ela se lembrava com perfeição do sonho. Os olhos, principalmente os olhos... eles pediam perdão, eram tão reais!
Como ela queria poder sonhar com eles de novo, poder sentir tudo que sentira naquela mesma manhã. O professor se aproximou dela, era um homem novo, 32 anos.
Considerado bonito por muitas, inclusive Angel. – Tudo bem com você?
– Sim – a morena levantou a cabeça, olhando nos olhos castanho-escuros do homem. E ele se foi.
Ela sabia que a pergunta era resultante do fato que todos ali estavam sob sua responsabilidade, qualquer coisa que viesse a acontecer seria de sua responsabilidade e Carlos, o professor, já tinha muitas preocupações. Mais uma não seria bem vinda.
Angel acompanhou seus passos, viu quando Kimberly se jogou em cima do professor e afirmando que havia torcido o tornozelo. Aquilo era comum, alunas assediando-o, já se acostumara com o fato.

Mesmo que algumas alunas, como Kimberly, fossem bonitas, Carlos procurava alguém para casar. Segundo ele mesmo, já havia se divertido demais na vida, agora era o momento de procurar estabilidade com o casamento. Sabia que a escola em que trabalhava era o último lugar a se procurar uma pretendente, mas ele ainda assim arriscou o emprego com um beijo numa das professoras. Foi suspenso por dois meses.
Carlos olhou para a loira, ela era atraente, devia admitir, mas era uma atração que não passaria nunca disso. Kimberly não era para casar, ela servia apenas para uma noite de solidão e, mesmo assim, o moreno não se arriscaria novamente numa dessas aventuras no trabalho. Precisava do emprego mais do que de uma esposa, foi o que disse aos amigos quando se reuniram em seu pequeno apartamento alugado.
Reparou que as roupas que as líderes usavam estavam cada dia mais curtas, tanto que se podia ver quase tudo. Sorriu com a bronca que elas levariam mais tarde da diretora.
Era comum, elas sempre faziam isso e todos os dias a professora e diretora da escola lhes chamavam em seu escritório. Ele mesmo já presenciara várias vezes esses encontros nada agradáveis. Olhou para a quadra, Angelinne continuava quieta e distante dos demais alunos.
Ela sempre fora assim em suas aulas, apesar disso mantinha-se acima da média comum entre todos, que era baixa demais para sua opinião. Indo um pouco além, poderia até mesmo dizer que a menina era uma aluna exemplar, apesar de os outros professores discordarem nesse ponto, afirmando que ela conversava demais e arranjava brigas com as outras alunas.
Carlos sabia que era apenas para testá-lo, sabia que os outros professores haviam feito diversas tentativas de 'socializá-la', mas preferia deixar que ela decidisse qual o melhor momento para si. Não forçaria isso como os outros.
[N/a: Peço desculpas pela falta de atualizações na estória, mas tenho estado sem muito tempo para escrever.
Capítulo divido em duas partes, por enquanto. Essa é a primeira delas.
Para visualizar a estória completa, selecione o marcador (label) Angels Fall First.]