quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Uma só Pétala (SS/LE)




Prólogo


- Uma pétala de rosa pode mudar uma vida, basta apenas saber aplicá-la. - quem lhe dera se esse pensamento fosse válido em todas as circunstâncias de sua vida...
Mesmo assim ele guardou aquela flor e, por anos à fio ele permaneceu fiel à ela.

Foi numa noite vulgar que ele desejou com tanta força que ela pudesse retornar, mas de nada adiantou.

A única rosa ainda perfumada caiu de suas mãos às margens do rio do esquecimento.


Capítulo Primeiro

Fotografias

Snape estava ajoelhado diante à sua cama, nas mãos tinha uma caixinha de veludo negro. Abriu-a e dispôs sobre a colcha da cama duas fotos, seus dedos brincaram com os contornos da figura que se deixara fotografar - Lilly. - suspirou, sentiu-se embriagado com o perfume que provinha da caixa.
Era sempre assim, bastava abrir a caixa e o perfume dela invadia seus poros, apoderando-lhe a razão e tornando, de certa forma, sua existência menos caótica e perturbada.

Passou a mão pela colcha negra como a noite e chegou até algo macio e aconchegante, seu corpo clamava por descanso e ele subiu na cama, deitou-se, mas não se cobriu. Logo em seguida adormeceu, ainda com a foto nas mãos.


Capítulo Segundo
Essências


Acordou atordoado, a noite fora deveras curta para que seu corpo descansasse perfeitamente e a foto foi deixada de lado. Murmurou palavras de auto-reprovação e levantou-se com humor ainda pior do que o habitual.

As horas do dia passaram vagarosa e excessivamente dispersas, andavam conforme sua própria vontade até que, enfim, o sol se punha.

Ele se aproximou da cama, onde horas antes estivera junto com suas dolorosas e constantes lembranças. Pegou a flor que estava junto à caixa e aproximou-a do nariz.
O contraste dos perfumes foi extremo, o dele era Fougère, o dela era um Floral Aldeído com toque de bergamota. As essências eram tão diversas que ao mesmo tempo em que se repeliam, elas se completavam em perfeita harmonia.



Capítulo Terceiro

A Flor

Suas mãos exploraram os contornos frágeis da flor, encantando-o por vários minutos.
"É como se tocasse a pele dela, é algo surreal" - pensou. Mesmo sendo apenas uma flor ela representava toda a plenitude e felicidade que ele jamais pudera sentir dela.
Hoje ele pagava por erros do passado.

Algo chamou sua atenção, hoje era Natal. Tocou novamente a flor e a pôs de volta na caixa, estava decidido a, finalmente, cortar todas as suas dores e angustias de uma vez por todas.

Saiu apressado em direção ao lago, fora lá que passara diversos momentos de sua vida, alguns felizes, outros nem tanto.


Capítulo Quarto
Um Motivo


Chegou ao lago em poucos minutos, trazia consigo a caixinha, discretamente guardada sob as vestes.
Pôs-se debaixo de uma das árvores nas margens do lago, lá ele dera o primeiro beijo em Lilly. Sua mão foi de encontro ao tronco da árvore em sinal de ódio, não dela, mas dele próprio.
– Idiota! Você estragou tudo! - ele se repreendia com sussurros. - Só por causa da sua sede de poder, idiota!
Tirou a caixinha das vestes e pegou as fotos. Olhou-a por longos cinco minutos em busca de um motivo para não fazer o que pretendia, não encontrou nenhum.
As fotos foram rasgadas em pedaços e, em seguida, esses pedaços foram atirados ao vento. Snape se surpreendeu com seus próprios atos, ele sabia que aquelas eram as únicas fotos de Lilly que lhe restaram. Seus olhos se voltaram para a rosa que permanecia intacta dentro da caixinha, enfim, após buscar avidamente por um motivo, encontro-o, mas nem mesmo ele sabia de qual se tratava o mesmo.


Capítulo Quinto
Uma Pétala

Voltou para seus aposentos no interior do castelo, sentiu um cheiro sufocante, sua flor estava perdendo o perfume. - Não, por favor... - tarde, a rosa perdeu toda a magia de cheiros e essências, Snape se sentiu pior do que já se sentira em toda sua vida. Jogou a flor no chão, mas antes ele guardou uma única pétala da mesma.
Passou várias noites ao léu, buscando avidamente em sua memória o perfume de Lilly, mas não encontrou. Já não mais acreditava que Lilly fora real, o único consolo que possuía é a pétala de rosa, ela lhe dava a certeza de que um dia Lilly fora parte de sua vida.


Capítulo Sexto
Alguns anos depois...


Estava na frente de ataque, mas o Lord o chamava, ele sabia o que lhe aguardava.
Poucos minutos depois, ele estava sobre uma poça de sangue, sangue dele próprio. Sentiu que morreria logo, sentiu suas forças se esvaírem diante o par de lindas esmeraldas sobre si - Potter; olhe para mim... - o garoto olhou no fundo das duas ônix e em seguida saiu. Snape levou a mão insensível à um bolso nas vestes e de lá tirou uma pétala, mesmo sem sentir, ele sabia que ela voltara a ter o mesmo perfume de Lilly. A pétala caiu no chão, Snape morrera. - "Eu ouço seu nome, são os anjos sussurrando algo tão bonito que fere" - Snape pensou.


Epílogo
Felicidade

Snape acordou num lugar muito iluminado, tinha o cheiro do perfume de Lilly. Sentiu o vento formar ondas de pequenas folhas esverdeadas, - Sev? - reconheceu imediatamente aquela voz. - Sev, é você?! - sentiu-se abraçado e viu um monte de cabelos vermelhos cobriu-lhe a face.
– Lilly. - ele, mesmo que timidamente, retribuiu o abraço, sentiu-se amado por ela.
Ela sorriu em resposta, - Vem, vou apresentar-lhe outras pessoas. - uma montanha de rostos passou por seus olhos, Dumbledore se destacou dentre todos; as vestes azul-céu tremulavam sobre uma grama verde e bem aparada.
– Quem bom que nos reencontramos. - sorriu, Lilly ainda segurava sua mão. - espero que não tenha sentido dor ou qualquer outro incômodo. - Snape balançou a cabeça em negação. Lilly o abraçou, ao longe viu James e Sirius os dois estavam carrancudos.
– Vamos a um lugar, quero lhe mostrar uma coisa. - Lilly o puxou, levando-o em direção a um penhasco, lá em baixo o mar punia as pedras de forma incessante.

O sol se punha de forma silenciosa e distinta, os pássaros ficaram em silêncio quando Lilly pegou uma rosa vermelha e jogou precipício abaixo. - Tudo tem um início e um fim, esse é apenas mais um. - os dois permaneceram de mãos dadas ao pôr do sol.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Para a Eternidade (SS/NT)


Aquela noite fora a pior de toda sua vida, não queria vê-la morrer, não queria, mas fora forçado a fazê-lo.

Mesmo depois de alguns meses ele continuava no castelo, mais especificamente nas Masmorras, e ninguém ousava perturbá-lo.

Era uma noite de lua quando decidiu que iria por os pensamentos em ordem e assim sendo, rumou para a Floresta Proibida onde tudo havia se passado - "só há uma forma de transpor seus medos, encarando-os de frente e vencendo-os" - isso era a filosofia de vida de Tonks. Sorriu sozinho, um sorriso triste e sem vida.

Andou para longe do castelo e queria permanecer eternamente ali, nunca retornar ao castelo e a sua solidão. Chegou a uma clareira criada ao acaso pela luta, havia sido lá toda a pior batalha.

Snape isolara toda e qualquer lembrança daquele lugar, mas agora elas dominavam-no e, pela primeira vez chorou por medo. Medo de nunca mais superar a dor e sucumbir nas lembranças ainda existentes. Ajoelhou-se no centro da clareira olhando para cada galho seco e retorcido: - Nulos resquícios de uma falsa verdade. - olhou para cada tronco noduloso das antigas e sábias árvores. - Sombras de um passado infeliz. - olhou para o céu estrelado. - Sombras de um passado inexistente. - soluçava e os soluços guiavam seus atos. Nada lhe pertencia, nada a não ser a dor e a solidão, nos últimos meses.

Por um momento o rosto jovem e belo de Tonks apoderou-lhe a razão e ele levou a mão à um dos bolsos de suas vestes, de lá ele tirou uma foto e uma mecha de cabelo. No verso da foto, que retravava uma Tonks alegre e sorridente abraçada à um Severus menos carrancudo, havia apenas uma palavra: - Eterno. - numa letra apertada e minúscula. O homem passou os dedos pela mecha de cabelo rosa-chiclete da mulher, lembrando-se de como o conseguiu.

Era fim de tarde, quase anoitecendo.

Estavam na sede da Ordem onde Snape estava escondido, os dois estavam às sós, ela tentado fazê-lo rir, ele, procurando meios de ler um livro.

Derrepente, ele se irritou com as atitudes infantis dela, que apenas fingiu certa mágoa. - Desculpe. - disse, preparando-se para sair.

– Espere... - segurando-a pelo pulso. O cabelo que havia se tornado castanho voltou a ficar rosa e ela sorriu; o sorriso infantil de uma criança brincalhona.

– Eu te amo. - ela o beijou, deixando-se levar pelos olhos negros que atraíram cada centímetro de sua alma para si.

A noite caíra, abençoando-os com seu manto negro de silêncio e quietude, submergindo-os no desejo que emanava dos corpos ávidos um pelo outro.

Pela manhã, por instinto Snape tateou ao seu redor, mas ela já se fora há muito, e encontrou apenas alguns fios róseos presos à trama do tecido do travesseiro, denunciando sua presença. - Eu também te amo. - ele disse, para o sol que não mais se importava em permanecer do lado de fora da Mui antiga e nobre casa dos Black.

A vida se encaminhava para fazê-lo feliz novamente, mas mais uma vez Voldemort ia a contrapartida, tirando-a de seus braços, que clamavam por atenção e um corpo junto a si, deixando em seu lugar um corpo inerte e um homem sem alma. Seria seu eterno martírio a solidão ou apenas uma peça do destino? - Ninguém sabia, nem mesmo ele próprio.

A noite já ia alta e insistia em soprar as folhas de forma constante sobre o rosto de Snape, fazendo com que seus cabelos balançassem, criando uma dança medonha. A morte estava presente consigo desde a mais tenra idade, mas nunca o ameaçara de tal forma.

A lua iluminava o rosto macilento e pálido, dando um ar austero e de certo modo, macabro, mas sua expressão era de completa desilusão; completa, contínua e eterna solidão. Seus olhos, antes negros, agora estavam vermelhos e ardiam, as lágrimas ainda corriam livremente pelo rosto e alojando-se no chão coberto de húmus da floresta: - Por quê?

Sentia um enorme vazio tomando posse de suas ações, logo não mais podia chorar. Lembrou-se da Pedra da Ressurreição e passou-a três vezes pelos dedos; a figura fria e pálida de Tonks surgiu sentada numa pedra próxima, ele apenas observou-a, admirado, buscando absorver cada pequeno detalhe feminino e guardando-os para si gravados em sua alma para a eternidade. Ela não sorria, era sóbria e fria como uma estátua marmórea.

As nuvens se alinharam, impedindo que a pouca luz banhasse a clareira. Dentro em pouco choveria.

Snape soergue-se e foi aos poucos até ela. - Eterno.

A chuva caiu forte e grossa, ele não se moveu. Após alguns minutos, ele falou: - Perdoa-me por ter sido sempre assim!¹ - ele buscou a mão dela, que não o impediu. - Perdoa-me por ter sido eu mesmo¹ e nunca admitido ou demonstrado tudo que sinto por você! - seus olhos ainda clamavam por lágrimas, mas não mais as tinha. A chuva se encarregava por fazer o caminho que as lágrimas não faziam. - Ou por não ter podido salvá-la.

A chuva tomava ainda mais força e logo começariam os trovões. - Nada poderia ter feito para me impedir. Que sempre estar contigo, não importando como e onde. - as mãos se separaram e ela sumiu na tempestade, a foto e os fios eram as únicas coisas verdadeiramente importantes para ele.

Já era manhã quando a chuva se foi, mostrando um lindo sol matinal, um homem saia do castelo levando consigo um frasco de uma poção analgésica. Foi em direção à mesma clareira, onde, há horas esteve. - Dê-me um frasco mortal e atraente para brincar, e ficarei contente. - tomou o conteúdo do frasco de uma vez e o arremessou à distância. Não havia tempo para se perder ou logo o efeito passaria. Pegou a pedra no mesmo bolso anterior e passou-a novamente pelos dedos, a mesma Tonks de horas atrás apareceu - Fria e pálida, mas ainda assim bela. - pegou uma adaga que reluzia à luz solar. - Não vou conseguir viver mais sem você. - o punhal feriu mortalmente o pescoço, fazendo com que tudo próximo à Snape adquirisse tons vermelho.

Logo os dois estariam juntos.

¹ - A Canção de Amor de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke - Rilke.