quarta-feira, 31 de março de 2010

Capítulo I (SPN)




Capítulo I

Tudo começou aquele dia, eu escrevia quieta enquanto todos conversavam e o professor pediu silêncio.

Faltavam apenas alguns meses para que eu me formasse. Mesmo sem perspectivas de uma faculdade, eu queria obter todo o conhecimento que pudesse absorver.

Minha mão corria pelo papel revisando o texto recém-escrito, porém eu ainda procurava prestar atenção à explicação do professor de química. Ele era um homem de meia idade, a caminho da calvície completa.
A baixa estatura aliada à barriga proeminente e os poucos fios de cabelo restantes deram-no a fama de solteirão, sempre paquerando as professoras mais jovens e até mesmo as alunas. Felizmente eu não me encaixava no seu padrão de beleza juvenil.

Com pouco mais de 1,60 metro e o corpo ainda em formação, eu não era bonita, e diversas garotas confirmavam isso diariamente.
– Menina-Monstro?! - uma das cheerleaders me chamava. Para elas eu era apenas uma mente capaz de resolver os problemas de álgebra e os cálculos em química e física, nada mais.

De certa forma, a ausência de beleza me ajudava a passar despercebida aos olhares masculinos. E eu agradecia por isso.

Olhei para Kimberly e ela me mostrou o portifólio com suas atividades por fazer, me levantei e fui até ela - Que dia?
– Amanhã mesmo - respondi-lhe a data em que lhe entregaria suas atividades respondidas, ela assentiu e eu voltei para minha carteira.

Essa era uma das formas que ganhava algum dinheiro, visto que o que meus pais ganham mal é suficiente para sustentar seus vícios: o álcool e as drogas. Tenho perfeito conhecimento de que eles furtam algumas notas quando acham que eu não estou olhando, tolos... Entretanto, eu prefiro permanecer calada a reclamar e sofrer ainda mais abusos do que já sofro, talvez até mesmo morrer.

O sinal indicou o término das aulas daquele dia -... Bom, é isso. E não se esqueçam de fazer os exercícios que passei - e o Sr. Damon se despediu com um sorriso malicioso lançado à Kimberly e se foi.

Arrumei meus materiais, com especial cuidado com o portifólio de Kimberly. Ainda me lembro de quando, num dia chuvoso, deixei-o cair e tive de pagá-lo mais tarde - e não foi nada, nada barato...

Fui andando para o estacionamento, não, eu não tinha um carro, mas a saída mais próxima era por lá e eu não queria me demorar a chegar em casa. Quando me aproximava do portão, Christian - um dos poucos hispânicos da escola e também um associado ao "clube dos esquisitões e rejeitados", como eu - veio ao meu encontro, trazia seu já conhecido sorriso no rosto. Parecia que nada pelo que passasse iria abalá-lo, como eu gostaria de ser como ele...


– Olá! - ele sorria ainda mais, isso acabou por me deixar pior mesmo eu não querendo demonstrar. Sei que doeria dizer que sentia saudades desse sorriso quando fosse embora, então preferia o silêncio. Pelo menos ele não sentiria tanto quanto eu.

– Oi - respondi simplesmente.
– Ah, vamos! Faltam apenas 3 meses para nos formamos e podermos ir conhecer o resto do mundo! - esse era seu maior sonho: conhecer cada país do mundo, conhecer cada cultura, cada dialeto... Enfim, ele era muito semelhante comigo nesse aspecto: quanto mais distante, melhor.

– Ótimo, para você... - ele pareceu confuso, não era muito acostumado ao meu sarcasmo natural.

E Chris - como prefere ser chamado - começou a contar seus planos de viagens, mesmo sabendo que eu não os ouviria.

Eu me importava muito com ele, e exatamente por isso me doía cada pensamento de que pudéssemos nos afastar. Não é isso que você pode estar pensando, não era amor, não. Era mais como uma amizade muito profunda, construída com base na confiança e necessidade mútua. Ok, isso pode sim definir amor, mas enfim, não era um amor "homem + mulher".

Andamos juntos e ele continuava a falar. Acredito que a família dele sofre muito com esse aspecto da personalidade de Chris, ele fala demais...

Continuamos a andar pelo quarteirão, até que Chris parou de andar e me olhou - sim, ele sabia que eu não estava prestando atenção a nada que ele falava, mas não era isso.
– Até quando vai ficar ai, calada? - ele me olhou mais intensamente e sorriu - Você aprontou que eu sei...! - o que ele queria dizer era que eu havia escrito algo durante as aulas.

Talvez o único ponto de discórdia entre nós era a exclusividade que ele exigia para com as minhas estórias. Ele deveria ser sempre o primeiro a lê-las, fossem ruins ou boas. - Não, eu não escrevi - sorri fraca.
– Mentira, eu sei que você escreveu - Admito, sou uma péssima atriz... Preciso melhorar isso.
– Ok, eu escrevi. Mas, dessa vez você não lerá - Fato. Sempre que eu começava uma estória e Chris a via, acidentes aconteciam e eu era impedida de terminá-la.
Lê-se: Meus pais ficavam sabendo e sim, Chris não é nada discreto.

– Por quê? - ele falou com a expressão extremamente ofendida. Posso até ser uma escritora amadora, mas Chris é um ótimo ator. Fica a dica para que as meninas não se envolvam com ele.

Por mais que não pareça, Chris é atraente (se eu disser isso à ele, com certeza ficará ainda mais convencido), porém não tanto quanto ele julga ser. Acho eu, que a única coisa que pode mudar a forma como as garotas o vêem, é um bom banho de loja.
É mais do que comum vê-lo usando camisas espalhafatosas e muito coloridas, ele diz que é a forma que encontrou de se orgulhar de suas raízes. Eu digo que Porto Rico não é o mesmo que Brasil, mas ele não compreende - ou me ignora; eu particularmente acho que é a segunda opção.

– Você sabe por que - um olhar de cachorro pidão foi a resposta que obtive. Definitivamente ele é um ótimo ator.
– Juro que não sei Angel. - ele sorriu, me convencendo por fim a mostrar-lhe a estória.
– Eu mostro... - ele ergueu os braços comemorando e me interrompendo. Puxei sua camisa alertando-o das pessoas que nos olhavam com expressões de: "Quem são esses loucos?!".
– Ooops... - sorriu e eu bufei.
– Eu mostro com a condição de que seja lá em casa. Meus pais chegam daqui a pouco, isso se não já chegaram, e eu tenho muito que fazer - só percebi o que havia dito depois que já era muito tarde. Ele sorriu com a dupla conotação da frase, e foi ignorado.

Seguimos andando, cada vez mais eu apertava o passo queria chegar logo em casa e fazer as atividades de Kimberly para poder cuidar das minhas. Também sabia que se não chegasse logo em casa, Chris me levaria novamente à uma lanchonete para conversarmos e queria a todo custo evitar proximidade com ele.

– Você não vai me mostrar, não? - ele falou com uma voz carregada de sotaque e manha. E o pior de tudo era ele saber que me dobraria facilmente com isso.

Sim, eu gosto do sotaque hispânico dele, fato. E quando é somada a fala manhosa no "pacote", eu acabo (querendo, ou não) fazendo o que ele quer, fato.

Sentei-me no meio-fio e abri minha mochila, lá estavam os escritos. - Muito cuidado, manusear com as mãos limpas, não comer próximo à eles, não ler em voz alta, dedicar atenção total à limpeza do ambiente antes de removê-los do envelope - repetimos juntos.

Sim, para que eu permitisse (como se eu pudesse impedi-lo) a leitura das minhas estórias eu exigia cuidado máximo quanto à limpeza e organização. Até porque eu raramente fazia cópias e pretendia sempre tê-los por perto.

Ele pegou o envelope de papel pardo sorrindo triunfante e colocou em sua mochila, depois se sentou ao meu lado - Sabia que eu te amo? - ele disse.
– Claro, tanto quanto eu prefiro sorvete de morango - sarcasmo. Eu era a única pessoa que ele conhecia que preferiria sorvetes de gostos duvidosos (literalmente), lembro-me que uma vez escolhi um sorvete de chocolate e achei horrível, fiquei imaginando como as pessoas poderiam gostar daquilo... É tão... Estranho.

Chris fez uma expressão de quem se sente ofendido. O motivo: ele simplesmente A-M-A sorvete de morango. Total, é uma paixão platônica. Revirei os olhos e me levantei.

Peguei minha mochila e comecei a andar de novo, Chris apenas me olhava. - Ué? Não vai vir, ainda não chegamos às nossas casas... - só então ele pareceu perceber que estávamos sentados no meio-fio em algum lugar perto da escola, o que não era nada seguro.
Não que eu ligue muito para segurança, nunca a tive, mas ligava para Chris, que fora criado em família. Ele levantou-se e recomeçamos a andar, dessa vez em silêncio (por um milagre divino ele calou-se).

Andamos mais alguns quarteirões até que chegamos à sua casa. Seu irmão mais velho e seu avô estavam sentados na varanda conversando, eram uma família. - Não quer entrar? - ele me perguntou.
– Não, obrigada. Tchau. - acenei e fui andando, mas podia sentir seus olhos cravados às minhas costas, segui sem olhar para trás.

Andei mais rápido, queria logo chegar em casa para não ter de prestar (mais) satisfações de onde estava, com quem e fazendo o que. Conforme andava as pessoas olhavam para mim com o rosto indiferente, mas cedo ou tarde eu teria de me acostumar, afinal, a vida em outro país não é exatamente o que todos acham: glamour e dinheiro, não, muito pelo contrário.

Caso fosse pega pelos policiais da fronteira, além de deportada, poderia (e com certeza seria) ser presa. Agora ficaria muito linda na pose para as manchetes policiais: "... Mais uma imigrante ilegal é presa. Ela alegava sair do país para estudar...", não quero nem imaginar o que fariam comigo na cadeia.

Enfim, essa é a realidade quando se é "classe média" num país onde só há faculdades particulares e seus pais não ligam a mínima para você.
Antes que pense, não sou uma pessoa revoltada, até creio que o contrário: não ligo muito para nada, exceto os livros e cadernos, eles são meus amigos verdadeiros.

Geralmente as pessoas vêem em seus cadernos apenas um objeto no qual se pode inserir informações, mas eu não faço parte dessa classe dominante. Tanto que cuido com o máximo de zelo possível os meus. As mesmas recomendações que disse à Chris valem para mim, talvez até mais rígidas.


Cheguei em casa, não é o local mais lindo do mundo, muito menos o mais feliz, mas isso não tira o título de "lar". Procurei minha chave e logo entrei, queria fazer tudo que devia fazer para me livrar de mais broncas e reclamações.

A vizinhança não era lá das melhores, mas também não chegava a ser aconselhável sair dali. Pelo menos não ainda.

Fui para meu quarto (se é que aquilo pode ser chamado de quarto...) e deixei meus materiais na mesinha de estudos. Olhei ao redor, eu sentiria saudades disso aqui muito em breve - eu sei, parece conversa de quem está prestes a ser executado, mas o que eu faria não passaria tão longe disso.

Angelinne Salazar


[N/a: A partir desse ponto a estória começará a realmente ser desenvolvida. Tanto que a princípio ela poderá parecer cortada, mas em breve esse recuo será explicado e justificado.

Para ver a estória completa, selecione o marcador (label) Angels Fall First.]

Um comentário: