Então eu corri, corri o mais rápido que pude, corri de tudo e de todos, corri para longe - Porque temer é o primeiro passo para não sentir medo... Idiota, o que você está fazendo?
Eu queria ficar longe de tudo e de todos e por isso eu me isolei com uma máscara de popularidade e alegria, mas por trás disso tudo eu ainda senti dor, mesmo depois de nunca mais olhar na cara daquele homem eu chorei, - Por vergonha! - não pude permanecer de pé, cai de joelhos.
– Eu tenho vergonha de mim mesma, - queria nunca mais temer, nunca mais me envergonhar, nunca mais chorar. - Não mereço tudo que eu tive, - sorri; um sorriso triste e sem vida.
Alguém entrou no recinto. - O que houve?
– Nada, eu estou bem. - estava em choque, tudo caiu como uma pedra em cima de mim, - Eu sou uma farsa. Eu não sou uma pessoa, sou apenas o reflexo de meias-verdades.
- ela me olhava procurando respostas às quais nem mesmo eu tinha. - não sou eu, sou apenas a sombra de alguém. Dor, medo, apreensão... Vergonha. - disse, pausadamente. A expressão da mulher mudava a cada sílaba pronunciada. - Não sou ninguém, não mais. Dor, queria que ardesse de forma coerente, mas esperei e nada veio. Medo, queria temer, mas era impossível. Apreensão, medo por não temer. Vergonha, por sentir.
Não sou ninguém. Sou uma pessoa e temo por mim mesma, dói saber a verdade, mas eu não a sinto. - os dois se entreolharam buscando uma forma de compreender o que dizia. - Não sou ninguém, espelho de meias-verdades. Espelho de uma farsa completa. - permaneci olhando para o nada. - Não há o que temer, não há, mas deveria haver?! - uma única lágrima restante escorreu dos meus olhos. - Não há? – Você está delirando, precisa descansar. Vamos. - me afastei.
– Se não houvesse o que temer, porque então eu existo? - eu permaneci em silêncio, apenas meus olhos demonstraram a aflição que eu escondi no fundo do meu corpo. - Não há respostas, apenas perguntas. Não sei quem sou, não sei se sou, não sei se existo.
O sangue escorreu, era vermelho intenso. - Uma artéria, deveria ter sido uma veia, mas tudo bem, eu não me importo. - dei de ombros, não faria diferença entre as opções. - Dor, porque eu não a sinto? Eu deveria, não? - os dois olhavam abismados para o sangue, em seguida para mim. - Eu a espero, mas ela nunca vem. E a decepção continua a cada dia... Eu já chorei, mas ela nunca responde às minhas lágrimas. Eu já corri, mas ela sempre é mais rápida. Eu já gritei, mas ela é surda. Então eu parei, porque procurar por algo que nunca vai se encontrar?! Não faz sentido! - mais alguém entrou na sala.– Srta. Moon. - eu me virei, estava de pé. - O que está acontecendo aqui?
– Nada, apenas um momento de lucidez perversa. Nada, apenas o retrato de uma mente louca. Nada, apenas uma criança morta. Nada, apenas o rastro de uma vida sórdida, tediosa. - seus olhos vasculharam meu corpo e ele viu o corte no meu braço, a adaga na mão direita. - Nada, apenas um único momento de vida. Nada, apenas... Eu. - ele me olhou, intrigado. - Talvez seja melhor assim, ignorar o começo, esquecer do fim¹. Talvez seja melhor lá do que aqui. - o sangue continuava se esvaindo, eu continuava a encará-lo.
– Um espelho, uma mente louca em busca de um pouco de sanidade. Um espelho, uma criança morta. Um espelho, sangue inocente. Um espelho, dor.
– Menina. - eu o olhei. - não há dor, não há nada. Não há inocência que não fora perturbada, não há lágrima derramada. Não há nada. - os outros dois nos olharam, procurando compreender a situação. - Não é verdadeiro, é surreal. A dor pode matar, mas ela é necessária. - ele se aproximou. - Uma inocência roubada, uma alma deturpada. Um choro contido, vergonha acentuada.
– Porque nunca é sempre, mas mesmo assim eu me pergunto. Quando?
– Sempre que nunca é nada, mesmo quando nada é tudo e mesmo assim eu me pergunto. Quando?
– Sempre que uma lágrima correr, quando o sol morrer e mesmo assim eu me pergunto. Quando?
– Assim que o sol nascer, assim que a chuva passar e mesmo assim eu me pergunto. Quando?
– Sempre à noite, nunca de dia. Mesmo quando o nada me preenche eu choro. Quando o sol se põe, logo depois eu saio. Mas está chovendo, eu corro. Quando poderei ficar? - o espanto se fazia presente, todos nos olhavam e se entreolhavam em seguida, se perguntado: O que há entre eles?
– Mesmo assim, quando corre eu te procuro. Perguntando aonde vais, mas você me ignora e segue sem rumo. - diante dessas palavras eu chorei. - A noite é fria, mas você não sente, só continua correndo e fugindo de mim.
– Figuras passam rápidas demais para que eu possa reconhecê-las. No fim só há uma voz, ela me guia para longe de tudo e de todos, num mundo onde eu possa ficar. A chuva sessou, há horas de solidão completa, mas mesmo assim eu me pergunto. Onde estou?
– Perdida num lugar, escondida por medo. E eu te respondo: Quem és?
– Nem todas se reconhecem de tal forma ao ponto de saberem quem são, não da mesma forma que eu ou que você, mas de alguma forma elas sabem o que são. - ele suspirou - Mesmo sabendo que tudo não é nada; eu não sei o que sou. Por isso eu te pergunto: aonde vais?
– Nada não é tudo, nem mesmo é alguma coisa. Na noite eu gritei teu nome, por pura insanidade eu clamei por luz. Em algum lugar, perdida em pensamentos sozinha em algum canto. Eu fiquei quieta, em silêncio buscando respostas para um grito.
– De alguma forma eu não esqueci, por isso eu te chamo: Onde estás?
– Não há resposta à essa pergunta. Na noite eu permaneci; eu chorei de forma quieta e me calei em seguida. No dia eu andei, de forma exaustiva; buscando por respostas às perguntas eu cheguei até aqui, onde, até hoje estou. - um vácuo encheu a sala, todos olhavam abismados.
– Mesmo quando tudo não é nada, eu ainda não sei o que ou quem sou...
Perséfonne Moon
29/11/2009
¹ - Fábula, Engenheiros do Hawaii29/11/2009
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